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Touro Bengala termina aqui.

Pouco menos de 200 posts em pouco menos de dois anos. Comentou-se a bienal, o arquétipo do Saci, os bairros de Santos, a expiração de licenças; fez-se poemas com a palavra estandarte e com o cerne de uma noite esquisita, com a palavra candeia e com o caso Villa; argumentou-se que “se a contribuição nos momentos em que a imagem prepondera não é percebida em alta conta, O que fazer se distancia, por hábito, da própria imagem, nome desvalorizado, e mostra-se um hábito então sem motivo”; especulou-se que “basta ouvirmos a violência da primeira variação, sua “explosão em precipício”, como garante Gould, para imaginar se, mais uma vez, numa mesma obra imortal, cânone (do grego Kanon, regra) e diferenciação não haveriam coexistido, de um jeito arriscado de inédito, tão claras quanto inseparáveis, a partir do rigoroso capricho de um criador”; lançou-se um livro e outro; articulou-se simpáticos parzinhos foto-poema como este; fotografou-se andaimes. No rodapé da página, onde está escrito “mais, mais“, você pode navegar mês a mês no blog inteiro. Boa leitura!

Então, como um mendigo pré-socrático, urbano e peripatético, estendo minha simpatia aos cães severos, que me cheiram e depois passam. Também eles são bonecas russas, cães dentro de cães, mas não parecem se importar com isto. Preocupam-se com sua fome, com os intestinos dentro dos intestinos, e farejam a boa nova (carne! mijo! cadela! lua!) nessa espécie de olfato topológico que somente os cães urbanos possuem. Então me perguntam que tens, múmia de outra múmia, vida de outra vida, rosa de outra rosa? E respondo: nada, e canto como quem se banha e a passagem, como uma goteira irritante, dos minutos pela garganta estreita da minha aflição fica aos poucos para trás.

Trecho do livro Ó, de Nuno Ramos [Iluminuras, 2010]

Diferentemente do que prega a crendice popular, demasiado intoxicada pela parte mal explicada da psicanálise, ainda, a melhor metáfora para opinião não é uma parte do corpo, mas as roupas que o vestem. Vergonha de ter opinião é vergonha de andar vestido. Você, numa simples camiseta, pode dar uma opinião filosófica definitiva sobre a vida; vejam, por exemplo, as marcas “drop dead” ou “slave”. Mesmo que no dia seguinte elas fiquem no varal e você saia de branco, um arco-íris de criança desenhado na manga [“era a camiseta, não era eu” / “ah” / “…” / “mas era enfática” / “sim, é” / “e bonita!” / “obrigado”]. Substituto sonicamente infeliz de “crítica”, opinião carrega em si a marca do amador, a hesitação insossa do diletante. Acostumamo-nos a dar ao texto opinativo um teto baixo, o respeito vai até certo ponto, a paridade com a origem (o objeto criticado) também [“achei fodona” / “é fácil falar, quero ver ir lá no palco e cantar” / “eu não quero e quero ver ele vir à minha poltrona dizer que achou fodona, é super difícil, pense em tudo que me aconteceu até agora, nos materias que montam os móveis dessa sala, onde estou e de onde falo, pense em todos os nossos corpos na noite de hoje, em tudo o que associei para achar o que achei e todos os músculos que articulei para fazer a palavra fodona soar em alto e bom som” / “é… falar talvez não seja tão fácil”].

Paraíso e manguezal da opinião, a internet parece ter inédito e enorme o potencial para ser o sítio de treinamento intensivo e campo de batalha que ora se esboça nítido e inspirador, mais urgente que os romances do século XIX e a imprensa e o cinema do XX [“o romance vai morrer?” / “deixa ver… não” / “o jornal?” / “só um segundo… diz que não!”]. É assim que ela cresce, a civilização, deixando coisas para trás e levando adiante seus hologramas transformers. Basta se dedicar um pouco à leitura de sequências de comentários a um objeto de seu interesse numa URL qualquer. Ali estão os atuais russos explicando a França desde uma frieza mais oriental; ali estão os atuais americanos reagindo mal à economia mal feita; ali estão os atuais andinos bebendo chá cefeinado e clamando por progresso e retorno ao que nunca se esquece.

É muito fácil cercear um cineasta. Fácil cercear um romancista. Dificílimo cercear um comentador de internet. Todo nosso estudo, até hoje, serviu para que fosse diluído em comentários na internet. Agora podemos compartilhar em velocidade explosiva e ininterrupta o conhecimento total. Mas há um movimento corrente além da já tratada vergonha de ter opinião que se revela mais problema que solução e cuja propaganda diz: tenha vergonha de ter opinião. É um absurdo perdido no meio da síntese do mundo concreto que é a internet. A contrapartida, já em andamento, é a proliferação do que seriam os blogs de moda, voltando à metáfora da camiseta.

Me apraz este seu modo de usar
o termo teoria
feito xarope ou feito vacina
contra a overdose
do fato – tirano que te mata
na volta da praia.

Me apraz neste seu corpo a ossatura,
encaixe de mundos
tão fundos, ferramenta tão pura
de duplos carpados
doados ao primeiro na rua
que juntar as mãos.

Me apraz seu arquivo de sinais
armados, por mais
crassos, falhos e repetitivos;
ao menos te ingressam
na carreira onde não há mistério
nem telha de vidro.

 

“A ideia do a-historicismo e anti-historicismo de Cabral talvez derive do seu horror ao monumental (salvo o da aspirina) – porque não pode falar-se do seu horror ao documental.”, diz Arnaldo Saraiva neste estudo sobre  Auto do Frade, poema de João Cabral de Melo Neto publicado em 1984. Gostamos de usar João Cabral para tentar delinear, muitas vezes, um modelo extremado de intenção poética, o do verme do desdém e da frieza e do espúrio da geometria, o verme singular&violento da imagem. Gostamos de aproximar João Cabral de Drummond para tentar mostrar quem pegou “a via mais certa” e mais humana, e aqui quase sempre erramos, não pela resposta, mas pela pergunta, que é muito, muito ruim. Marly de Oliveira aposta no prefácio das obras completas da Nova Aguilar que Auto do Frade é “uma resposta à exaltação da figura de Tiradentes, feita por Cecília Meireles no seu célebre Romanceiro da Inconfidência. O autor reivindica para frei Caneca, líder da revolução separatista de 24, prioridade e heroísmo na luta pela instalação da República do Brasil.” As vozes em troca no longo poema sugerem uma encenação; convencem; as imagens, muitas vezes, chegam a saltar; e a complacência do frei, a sagacidade da rua, a confusão dos oficiais, tudo se mistura quando o livro se fecha e a leitura cresce galgada no ritmo rigoroso da composição, mantendo as cores de pé sangrando mas diluindo os limites dos personagens em temporais de termos e tempos assimilados que se reconectam e sugerem novas e novas sentenças, e todas as vozes agora falam e vivem num mesmo ser, o leitor. Agora, tente dormir. A seguir, um trecho do poema em que falam Soldado, Oficial e A Gente no Largo sobre a execração do frei e sua condenação, e a dificuldade que foi o contratar de um carrasco:

O SOLDADO

Vi na cadeia muitos réus
que esperam tranquilos a pena.
Disse tudo o que me mandaram,
mas foi inútil toda a lenha.
Nem mesmo o monstruoso assassino
que trucidou na Madalena
pai, mãe, filho, mais quatro escravos
e um bebê de dias apenas,
que por isso foi condenado
pegando a última sentença,
concorda em enforcar o padre,
diz que é questão de consciência.
Parece que o melhor carrasco
é um menino em toda inocência:
ir buscar no Asilo da Roda
carrasco infantil, mas com venda.

OFICIAL

Seja o que for, vou eu agora
até a Comissão Militar
pedir que forme um pelotão
que venha para o fuzilar.
Única saída que vejo,
embora seja irregular:
é pedir o ascenso do crime
a um digno crime militar.

A GENTE NO LARGO

Enquanto isso tudo, ele espera
sentado nos degraus da forca.
Como se não fosse com ele
o corre-corre em sua volta.
Sente como pode ser longo
o que nós chamamos de agora.
Que é como um tempo de borracha
que se elastece ou que se corta.



Um computador que te avisa: você precisa de nutrientes. Ficção científica? Não para a turma dos Unidos Pela Casa, que acaba de instalar a versão test prosumer do código. “Mais um pouco e avisaremos do banho. Digo, mais um pouco e o computador avisará do banho.”, garante a fonte das moedas. “É que dá pra esperar um pouco mais, aproveitar melhor a água de todos.”

words moving jaw

towards remembrances

of remembrances

– not secondhanded moan

 

its pivotal muscle cell

the secret stash machine

affecting the race

– not madness

 

cramps, though

math-friendly as ever

texting the looney fall of millions project

– not well

A sexta onda do meninismo
finalmente coincidirá
(nem tão fria, pênsil ou morosa)
com a roda do real paterno.

Agora que portamos nos olhos
gotas de mel, dirão os meninos
da sexta onda do meninismo,
seremos pais, calvos, mas zelosos

pais meninos aptos à conjuração
necessária da mãe da guarda e do toque
sempre que a hora pedir. Desengajados pais
rochosos em seus teares de confronto.

Os pais da sexta onda, os seus meninos
generosos e mães do mel e da roda
paterna do zelo quando mar e rocha
se encontram, serão as mães da sexta onda.

Quando aproxima Nietzsche de Freud, Rorty escolhe o segundo como o mais “útil e plausível”. Se Nietzsche crê que a vasta maioria do pessoal não vale muito a pena, Freud pensa que graças à “fantasia do inconsciente”, a vida de todo e cada um pode ser como um poema, leve o bastante para contrapor linguagem à dor, e razoavelmente livre para dispará-lo em vias múltiplas de autodescrição. O orquideiro de Cambridge fez esta aproximação em Contingência, ironia, e solidariedade, livro de 1989 que li em 2009. Foi quando ouvi falar de SCARRY, Elaine, e seu assustador The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World pela primeira vez.

Rorty não quer dizer, naquele instante, por que contrapor linguagem à dor e meter-se em vias múltiplas de autodescrição é importante, mas sugere ao curioso que leia Scarry. Na época meus nervos entre as quarta e quinta peças lombares sofriam a severa e irrefreável pressão de um disco roto. Hérnia limítrofe aos 28. Lembro de separar as sílabas de lancinante com ênfase nas frestas dos dedos do meu pé direito usando faca de churrasco; talvez assim isso eu confundisse a dor, talvez assim eu despistasse o cérebro. Mas porque tendo a suar muito ali, a cicatrização foi um martírio, e piorei. Ó, dor, caos marcado e sem êxodo. Confuso e febril, decidi que o livro The Body in Pain era um sinal. Dos céus! Sim! Talvez naquele livro eu encontrasse a sabedoria para lutar e resistir até os dias da operação! Talvez eu nunca mais precisasse ler outra coisa! Comprei pela internet, paguei mais caro o envio expresso, o livro chegou e não, não era aquilo. Depois de duas tentativas vencidas pelo sono da cortizona, abandonei-o na pouquíssimo glamurosa pilha da não-ficção e fui ler Dalton Trevisan no chão da cozinha.

Clichê do intelectual decente, Rorty se sentia só: foi múmia para os liberais, lunático para os conservadores. Não era. Popularizou a filosofia entre os estudantes de sociologia e psicologia e reanimou discussões antigas, abstratas e analíticas usando a literatura desinteressada e quente de Gorki, Orwell, Proust, Kundera, Swift, Joyce, Stendhal, Nabokov e William Blake. Disse que quem chega aos 40 sem ter lido Marx pode passar muito bem sem fazê-lo (seu caso), e bota políticos que se vendem como marxistas (“gangs of thugs”) no mesmo saco dos cruéis cristãos inquisidores; mas cita o “remarkable” Body in Pain de Scarry, esta hipermarxista, com entusiasmo.

O texto de Freud, ainda que menos estiloso, parece mais útil que o de Nietzsche porque nos lembra que dentro de cada escafandro vive nítida e linda uma borboleta imortal. A que, sim, Nietzsche responderia com vômito e morte lenta na própria bile. Mas mesmo que Rorty faça Freud vencer esta contenda imaginária por utilidade e plausibilidade (qualidades pouco importantes para um revolucionário, sim), o importante é aprender que o delicado filósofo americano não queimaria, nem que lhe pagassem com dinheiro vivo ou cupons de desconto, os livros de um ou de outro. Rorty gostava de um bom livro, viesse de onde fosse, tocante e legível e em estilo tão vário a ponto de torná-lo “incomensurável com seus precursores”. Donde a Scarry nunca ter me deixado completamente a cabeça. Rorty já não cita tantas mulheres, e esta SCARRY, Elaine, só no Contingency, ele citou quatro vezes a mais que o próprio RUSSELL, Bertrand. Alguma coisa haveria de haver.

Semana passada, num rompante de delírio indoor, fui brincar de ler lombadas e ouvir música eletrônica. Cheguei em The Body in Pain – Scarry, lombada-poema, num momento em que timbres agudíssimos farreavam sobre uma cama leitosa de graves quase indiscerníveis. Um sinal! É um sinal! Ataque! Ataque! Retirei o livro de Scarry e abri-o meio ao meio. Caiu no capítulo quatro, The Structure of Belief and Its Modulation into Material Making: Body and Voice in the Judeo-Christian Scriptures and the Writings of Marx. Pausei a música, cocei-me um pouco, achei melhor sentar.

No capítulo, peça pequena e bem acabada de história e crítica, Scarry examina as adições do Novo ao Velho Testamento e tira daí uma metáfora convincente para O Capital. Se no Velho Testamento é a arma, o ferir, que aparece entre o homem e seu artefato Deus, no complemento cristão o intermédio é Jesus, a própria ferida. Do texto velho para o texto novo, finalmente vemos Deus a um só tempo onipotente e sofredor: “a dor de um não é mais sinal de poder do outro”. Se Jeová surgia como a dor produzida, Jesus se apresenta curando e, “mais importante, sendo ele mesmo o objeto de toque, o objeto de visão, o objeto de audição.” Seria um deslocamento, de artefato em artefato, da exclusão à dor e de volta, e basta aparecer na equação para perder a chance. Só se salva quem não existe: a presença não material de Deus, o Capitalista invisível e recorrente em seus acúmulos, isolado da cadeia num paraíso fiscal. Se o homem se crê criação de seu próprio artefato Deus, o trabalhador se crê criação de seu próprio artefato capitalismo.

Mas Deus, materializado em Jesus, inspira no crente seu potencial fazedor. De crente a fazedor, eis um deslocamente que sugere outros: da arma à ferramenta, da dor à capacidade de autotransformação, ou autodescrição, como quer Rorty. O texto novo é rico em carpinteiros, pescadores, jardineiros, curandeiros, fazedores de barracas. Marx celebra o materialismo assim como o cristianismo celebra Jesus. No filho de Deus, vemos e sentimos nosso corpo e nosso Deus. Na mesa e na cadeira, vemos e sentimos nosso corpo e nossos desejos. “O materialismo tem premissas tão humanas que Marx jamais pensaria uma cultura melhor servida pela retração ao impulso do fazer, mesmo se tal retração fosse possível.”

Mas o capitalismo, como visto por Marx, pelo desrespeito a uma regra crucial, teria engendrado um “sistema social” perverso, que afasta para sempre o fazedor de seu fazer e rouba o homem de sua identidade humana possível (a de “criador” e “fazedor”), ou a torna, no mínimo, um pesadelo kafkiano. Esta regra Scarry chama de “referencialidade obrigatória das ficções”. De artefato em artefato, os caminhos de ida e volta deveriam ser recíprocos. Obrigatoriamente. Da imaginação à mão, da mão ao fazer, do fazer à coisa, da coisa ao uso: em cada passo adiante há um registro verificável do passo anterior. No capitalismo observado por Marx, e já no nível elementar da commodity em que as dezenas de milhares de trabalhadores materializam o produto e ao mesmo tempo possibilitam o excedente de valor a que nunca terão acesso, esta obrigatoriedade deixa de ser obrigatória, e “colocar-se no interior do capital é colocar-se no interior de um artefato defeituoso”. Pense nos cortadores de cana, dezenas de milhares, e nos coletores dos lucros do etanol, apenas dezenas. Mas ser capitalista é assumir um risco, e ser trabalhador é trocar esse risco por estabilidade, diz o capitalista. “Assim como Don Quixote”, responde Marx, “consola o Sancho com a ideia de que, apesar de levar todas as porradas, ele não precisa ser corajoso”. Se o capitalismo observado por Marx no século XIX fosse justo, o trabalho do trabalhador voltaria todo em conforto, aquecimento e luz, e ele até poderia começar a se esquecer de que tem um corpo. Ele até se divertiria com seus filhos; filhos que, no lugar de estarem sujos de carvão, estariam aprendendo a ler e a escrever. Mas o que o trabalho devolve são algumas horas de restauro para, no dia seguinte, o corpo se vender novamente.

Scarry se arrisca e descreve o capitaslimo de Marx como uma narrativa imagética, à moda dos Velho e Novo Testamentos. “Dois homens cruzam o campo”, ela diz, “se aproximam da commodity [um artefato, uma pilha de carvão, uma pilha de dinheiro] e param, um de cada lado”. Um homem, o trabalhador, toca o artefato e então seu corpo fica maior e mais pesado. O outro homem, o capitalista, toca o artefato e seu corpo fica leve e evapora-se. “Os dois homens são de tribos diferentes e, ainda que habitem o mesmo campo, nunca se olharam frente a frente.” O Capital de Marx, se reescrito com “esplendor e convicção”, lembraria, diz Scarry, as cenas de ferimento no Velho Testamento. Ali, Deus e homem enfrentam-se, mas um tem corpo e o outro não. Não que o problema de Marx, a relação internamente atrapalhada entre trabalho e capital, pudesse deixar de existir a partir do exemplo da adição cristã ao problema da fé no texto judaico. Este trabalho ainda estaria em andamento, acredita Scarry, e o que se apresenta como solução em um lugar, pode muito bem virar problema em outro. A autora aproxima a narrativa judaico-cristã d’O Capital num sincero e empolgante exercício literário que tenta emoldurar o “problema do sofrimento” na ideia mais ampla e generosa do “problema do fazer”, e mesmo assim admite sua limitação intelecutal para “resolver” a questão.

Se o texto novo quer trocar a ideia de dor pela ideia de cura, a arma pela ferramenta, seu personagem central, depois de muito curar, padece nesta outra e nova arma que é a cruz. E a cruz é curiosa, pois “não leva gravada em sua estrutura a posição do executor.” Não há cabo, empunhadura, gatilho, alavanca. É a faca só lâmina que, confusos e febris, levamos pendurada por aí.

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Muitas são as coisas prodigiosas sobre a terra mas nenhuma mais prodigiosa do que o próprio homem. Quando as tempestades do sul varrem o oceano, ele abre um caminho audacioso no meio das ondas gigantescas que em vão procuram amedrontá-lo: à mais velha das deusas, à Terra eterna infatigável, ano após ano ele lhe rasga o ventre com a charrua, obrigando-a a maior fertilidade. A raça volátil dos pássaros captura, muita vez, em pleno voo. Caça as bestas selvagens e atrai para suas redes habilmente tecidas e astuciosamente estendidas a fauna múltipla do mar, tudo isso ele faz, o homem, esse supremo engenho. Doma a fera agressiva acostumada à luta, coloca a sela no cavalo bravo, e mete a canga no pescoço do furioso touro da montanha. A palavra, o jogo fugaz do pensamento, as leis que regem o Estado, tudo ele aprendeu, a si próprio ensinou.

Trecho da Antígona de Sófocles [PAZ E TERRA – Coleção Leitura – 1996 – trad. Millôr Fernandes]