[legenda da foto, com olhos ardendo:

A época é de maçã, embora elas não estejam bem, e a queda de energia ontem à noite no Cambuci também veio a calhar – pude terminar de ler “A Maçã no Escuro” no escuro, quero dizer, à luz de velas, quase caindo enquanto o chumbo era derretido em pasta, 320 páginas grifadas:

“(…)
– Você está consciente, meu filho, do que está fazendo?
– Estou sim, meu pai.
– Você está consciente de que, com a esperança, você nunca mais terá repouso, meu filho?
– Estou sim, meu pai.
– Você está consciente de que, com a esperança, você perderá todas as outras armas, meu filho?
– Estou sim, meu pai.
– E que sem o cinismo você estará nu?
– Estou sim, meu pai.
– Você sabe que esperança é também aceitar não acreditar, meu filho?
– Sei sim, meu pai.
– Você está consciente de que acreditar é tão pesado a carregar como uma maldição de mãe?
– Estou sim, meu pai.
– Você sabe que o nosso semelhante é uma porcaria?
– Sei sim, meu pai.
– E você sabe que você também é uma porcaria?
– Sei sim, meu pai.
– Mas você sabe que não me refiro à baixeza que tanto nos atrai e que admiramos e desejamos, mas sim ao fato de que o nosso semelhante, além do mais, é muito chato?
– Sei sim, meu pai.
– Você sabe que esperança consiste às vezes numa pergunta sem resposta?
– Sei sim, meu pai.
– Você sabe que no fundo tudo isso não passa de amor? do grande amor?
– Sei sim, meu pai.
– Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida? E que esperança pode se tornar palavra, dogma e encalhe e sem-vergonhice? Você está pronto para saber que olhadas de perto as coisas não têm forma, e que olhadas de longe as coisas não são vistas? e que para cada coisa só há um instante? e que não é fácil viver apenas da lembrança de um instante?
– Esse instante…
– Cale a boca. Você sabe qual é o músculo da vida? se você disser que sabe, você está ruim; se você disser que não sabe, você está ruim. (O pai estava começando a descarrilhar.)
– Não sei, respondeu sem convicção, mas porque sabia que esta é a resposta que se deve dar.
– Você tem “descortinado” muito ultimamente, meu filho?
– Tenho, pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera “compreendê-lo”, deixara-o constrangido.
– Como vão suas relações sexuais, meu filho?
– Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde o tirara.
– Você sabe que o amor é cego, que quem ama o feio bonito lhe parece, e que seria do amarelo se não fosse o mau gosto? e que em casa de ferreiro espeto de pau, e quem não tem cão caça com gato, e boca-não-erra? disse o pai descarrilhando um pouco mais, não faltava muito para começar a contar o que fazia com mulheres antes naturalmente de ser casado com tua mãe. Você sabe que esperança é duro combate que aos fracos abate, e aos fortes etc.?
– Sei sim, meu pai.
– Você ao menos sabe que esperança é o grande absurdo, meu filho?
– Sei sim, meu pai.
– Você sabe que há que ser adulto para ter esperança!!!
– Sei, sei, sei!
– Então vai, meu filho. Ordeno-te que sofras a esperança.

Mas já na primeira nostalgia, a última como antes de nunca mais, Martim gritou pelo amparo:
– Que luz é essa, papai? gritou lá solitário na esperança, andando de quatro para fazer seu pai rir, fazendo uma perguntinha bem antiga e tola contanto que adiasse o momento de assumir o mundo. Que luz é essa, papaizinho! perguntou gaiato, com o coração batendo de solidão.
(…)”

(“A Maçã no Escuro”, C.Lispector, 1956.)]

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