Poster do Queen - Bicycle RaceComparecemos à concentração da última bicicletada paulistana, 50% de nós a pé e 50% de bike, comemorando aniversário da Praça do Ciclista – esquina da Av. Paulista com Consolação. Cidades brasileiras, argentinas, canadenses, mexicanas, norte-americanas, chinesas, russas, israelenses, tailandesas, australianas, francesas, alemãs, suíças, portuguesas, muitas, organizam suas bicicletadas toda última sexta-feira do mês, inspiradas pela Critical Mass de São Francisco, 1992.

É um movimento horizontal de celebração do espaço público que relembra a importância, garantida por lei, de se compartilhar a rua, estejamos a pé, de carro, skate, patins, charrete ou caminhão.

A preponderância dos carros em nosso país, que historicamente priorizou o modelo rodoviarista, dificulta o ir e vir de quem opta por outros meios de transporte, em especial nas grandes cidades. Em São Paulo, o transporte público é deficiente, andar a pé é árduo (frequentemente motoristas esquecem que o pedestre tem preferência e avançam sobre a faixa), motocicletas sofrem na correria e bicicletas são erroneamente consideradas um estorvo ao trânsito (por isso a Massa Crítica relembra: “nós somos o trânsito”). Quem opta pelo carro conhece os congestionamentos. E todos respiram fumaça. Não é à toa que a cidade possui a maior frota de helicópteros do mundo.

Assim, bicicletadas não são apenas um movimento voltado aos ciclistas, mas à recuperação de fontes vitais de nossas cidades. Mais saúde, menos barulho, qualidade do ar, bom-humor, paisagens.

A esta altura todos já estão a par do desastre ocorrido em Porto Alegre. O que nos leva a pensar sobre os humores em trânsito. Prestes a explodir, como infelizmente fez o senhor do golf preto. Ou como fez Kudno Mojesic em 1976, preso por atacar automóveis com um machado, aos berros de “Acabem com todos os carros, eles são obras do diabo!”, ou o alemão que ficou comendo um pão em plena avenida, esperando que os carros o contornassem, conforme este belo texto de Vanessa Barbara de 2009.

O último discurso de David Foster Wallace, publicado no Guardian, é inspirador especialmente neste momento. Está disponível em inglês, temos a tradução um tanto precária de alguns parágrafos. Recomendamos a leitura no original, mas para quem quer entrever de que se trata, segue:

(…) Uma grande porcentagem das coisas que eu tendo a tomar automaticamente como certezas é, ao que parece, um erro ou uma ilusão. Exemplo da completa falsidade de algo sobre o qual automaticamente costumo ter certeza: tudo em minha própria experiência imediata apoia a minha profunda convicção de que sou o centro absoluto do universo, a mais real, vívida e importante pessoa da existência. Nós raramente falamos sobre esse tipo de egoísmo básico, natural, porque é socialmente repulsivo, mas no fundo é meio a mesma coisa para todos nós. É a nossa configuração padrão, implementada em nossas placas no nascimento. Pense nisso: não há experiência que você tenha tido e da qual não tenha sido o centro absoluto. O mundo como você o vivencia está bem aí na sua frente, ou atrás de você, ou à esquerda ou direita de você, na sua TV, no seu monitor, onde quer que seja. Pensamentos e sentimentos de outras pessoas precisam ser comunicados a você de alguma forma, mas os seus próprios são tão imediatos, urgentes, reais – você entendeu a ideia. Mas por favor, não pense que estou me preparando para pregar-lhe sobre compaixão ou outros conselhos ou as assim chamadas “virtudes”. Esta não é uma questão de virtude – é uma questão da minha escolha em fazer as coisas alterando ou me libertando, de algum modo, da minha natural e implementada configuração padrão, que é profundamente e literalmente auto-centrada, e de ver e interpretar tudo através dessas lentes do eu.

Por exemplo, digamos que é um dia normal, você se levanta de manhã, vai para seu desafiante emprego, e trabalha duro por nove ou dez horas, e no fim do dia você está cansado, estressado, e tudo que quer fazer é ir para casa e ter uma boa ceia e talvez relaxar por umas horas e então cair na cama cedo porque você tem que acordar no dia seguinte para fazer tudo de novo. Mas então você lembra que não tem comida em casa – então agora, depois do trabalho, você tem que entrar no seu carro e ir até o supermercado. É o fim de um dia de trabalho, o trânsito está péssimo, então ir ao mercado demora mais que deveria, e quando você finalmente chega lá o supermercado está lotado, porque obviamente é a hora do dia em que todas as outras pessoas que trabalham também tentam fazer suas compras, e a loja é iluminada de forma medonha e fluorescente, tocando um maldito Muzak ou pop, e é o último lugar em que você gostaria de estar, mas você não pode simplesmente entrar e sair rápido: você tem que andar por todos os enormes corredores lotados e superiluminados para achar o que procura, e tem que manobrar seu corpulento carrinho entre todas essas outras pessoas cansadas e apressadas com seus carrinhos, e obviamente também há as lentas e glaciais pessoas de idade, além de pessoas desligadas e as crianças que bloqueiam os corredores e você tem que ranger os dentes e tentar ser educado ao pedir para que o deixem passar, e eventualmente, e finalmente, pegar o que precisa para jantar, só que agora não há caixas suficientes abertos, mesmo sendo o horário de pico do fim do dia, então a fila do caixa está incrivelmente longa, o que é estúpido e irritante, mas você não pode despejá-la sobre a mocinha que trabalha freneticamente no caixa.

Enfim, você finalmente chega ao primeiro lugar da fila, e paga pela sua comida, e espera até que seu cheque ou cartão seja autenticado por uma máquina, e então ouve um “Tenha um bom dia” numa voz que é a própria voz da morte, então você tem que arrastar suas frágeis sacolinhas de compras pelo estacionamento lotado e acidentado, e tentar colocar suas sacolas no carro de modo a não deixar as coisas rolarem pra fora das sacolas no caminho, e então você tem que dirigir para casa no lento e pesado tráfego cheio de carros esportivos típicos da hora do rush etc, etc, etc…

O ponto é que merdas insignificantes e frustrantes como essas são exatamente onde o ato de escolher aparece. Porque engarrafamentos e corredores lotados e filas do caixa me dão tempo de pensar, e se eu não fizer uma decisão consciente sobre como pensar e no que prestar atenção, eu vou ficar puto e infeliz toda vez que tiver que comprar comida, porque minha natural configuração padrão é a certeza de que situações como essas dizem respeito totalmente a mim,  à minha fome, ao meu cansaço e ao meu desejo de apenas chegar em casa, e vai parecer, para todo mundo, que todos estão apenas em meu caminho, e quem são essas pessoas no meu caminho? E olhe como muitas delas parecem repulsivas, estúpidas, ruminantes, zumbis e não humanas na fila do caixa, ou como são irritantes e rudes essas pessoas falando alto em seus celulares no meio da fila,  e como isso é profundamente injusto: eu trabalhei muito duro o dia todo e estou faminto e cansado e mal posso chegar em casa para comer e relaxar por causa dessas malditas pessoas idiotas.

Ou se estou num modo mais socialmente consciente de minha configuração padrão, posso passar o tempo do engarrafamento do fim do dia tendo raiva e nojo da pista bloqueada por carros esportivos, Hummers e picapes de 12 válvulas queimando sem proveito seus egoístas tanques de 40 litros de gasolina, e eu posso me debruçar no fato de que os adesivos patrióticos ou religiosos parecem estar sempre colados nos carros mais repugnantes e egoístas, dirigidos pelos motoristas mais feios, imprudentes e agressivos, que estão normalmente falando em telefones celulares e fecham as outras pessoas pra conseguir 20 passos estúpidos adiante no engarrafamento, e posso pensar em como os filhos de nossos filhos vão nos desprezar por desperdiçar todo o combustível do futuro e provavelmente estragar o clima, e como somos todos mimados e estúpidos e nojentos, e como tudo isso é uma merda…

Se escolho pensar dessa forma, tudo bem, muitos de nós o fazemos – exceto que pensar dessa forma tende a ser tão fácil e automático que nem configura uma escolha. Pensar dessa forma é a minha configuração padrão. É a maneira automática e inconsciente de vivenciar as partes chatas, frustrantes e abarrotadas da vida adulta, quando estou operando na crença automática e inconsciente de que sou o centro do mundo e de que meus sentimentos e necessidades imediatos são o que deve determinar as prioridades do mundo. A questão é que obviamente há diferentes formas de se pensar nesse tipo de situações. Neste trânsito, todos esses carros empacados e inúteis no meu caminho: não é impossível que algumas dessas pessoas em SUVs passaram por horríveis acidentes de carro no passado e agora acham dirigir tão traumático que seus terapeutas todos recomendaram que tivessem um grande e pesado SUV para que pudessem sentir-se seguras o suficiente para dirigir; ou que o Hummer que acabou de me fechar talvez esteja sendo dirigido por um pai cujo filhinho está machucado ou doente no assento ao seu lado, e ele está tentando correr para o hospital, e ele está numa pressa muito maior e mais legítima que a minha – na verdade, sou eu quem está no seu caminho.

Mais uma vez, por favor, não pense que estou dando conselhos morais, ou que estou dizendo que você “deve” pensar dessa forma, ou que alguém espera que você faça isso automaticamente porque é difícil, exige vontade e esforço mental, e se você é como eu, há dias em que você não será capaz de fazê-lo, ou você apenas não vai querer, honestamente. Mas em muitos dias, se você está ciente o suficiente para dar a si mesmo uma escolha,  você pode escolher olhar de forma diferente a esta senhora gorda, supermaquiada e zumbi  que acaba de gritar a sua criancinha na fila do caixa – talvez ela não seja sempre assim, talvez ela tenha estado de pé por três noites segurando a mão de um marido com câncer nos ossos, ou talvez essa mesma senhora seja a funcionária que ganha mal no Departamento de Veículos Motorizados que ontem ajudou sua esposa a resolver um problema que parecia um pesadelo, só por um pequeno ato de bondade burocrática. Claro, nada disso é comum, mas também não é impossível – só depende do que você quer considerar.”

LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.
Se você conhece alguma tradução à altura do original disponível, por favor, informe-nos.

Anúncios