Jesuítas sobem a escarpa da Serra do Mar, guiados por tupi-guaranis. Fundam colégio; engendram língua; catequisam. Bandeirantes avançam nos longes da terra, cobertos de pele de anta. Tomam posse; procuram diamante; escravizam. Senhores de engenho definem cercas, “é tudo meu”. Compram escravos; mandam moer cana; exportam açúcar. Sementes de café espalham-se pelo Vale do Paraíba e zonas de terra roxa; nascidas na Etiópia, contrabandeadas na Guiana Francesa, tornam-se brotos, cafeeiros, lavouras. Atraem imigrantes, originam ferrovias. Ouro negro, misturado ao leite, dá política. Caboclos, mulatos, pretos, portugueses, espanhois, sírios, libaneses, judeus, japoneses e seus filhos movem-se, vestem-se, alimentam-se. Erguem indústrias têxteis e alimentícias – Lapa, Bom Retiro, Brás, Pari, Belém, Mooca, Ipiranga – chaminés entre cortiços, pensões, vilas, armazéns, vendinhas. Vem o francês Bouvard reformar o Vale do Anhangabaú – alarga ruas; planta jardins; inspira lojas elegantes. Vêm os alemães Glete e Nothmann fundar nossos Champs-Elysées – palacetes, alamedas e ruas largas dos Campos Elíseos definem modelo de bairro aristocrático, mais tarde seguido por Higienópolis, avenida Paulista e Jardins. A água encanada, o transporte por bondes, a iluminação pública, a pavimentação das ruas e demais melhoramentos são feitos “só em algumas áreas”.  The São Paulo Tramway Light and Power Co., a LIGHT, monopoliza o fornecimento de energia, telefonia e transporte sobre trilhos; corrompe autoridades e instituições para aprovar seus projetos. Terá a Light provocado a enchente de 1929? Se sim, quem pagará pelo crime? Questões que permanecem em aberto. Rios retificados. Várzeas ocupadas. Enchentes são inauguradas e retornam sempre em janeiros chuvosos. Light inverte curso das águas do Rio Pinheiros, visando alimentar a hidrelétrica Henry Borden em Cubatão. Prestes Maia desenha Plano de Avenidas em formato grelha radial perimetral marcando era das grandes obras viárias. Inaugura Nove de Julho, 23 de Maio, Radial Leste. Definida a opção por modelo rodoviarista de transporte sobre pneus. Cresce ocupação urbana em loteamentos distantes do centro. Critérios esquivos regularizam tais moradias. Ao ganhar a legalidade, ao receber a cidadania (#not) morador do subúrbio deve retribuir. Ou seja, votar. Surto rodoviarista pavimenta vias Dutra e Anchieta e inspira surto industrial – metalurgia, metal-mecânica, elétrica – por ABC e Guarulhos. Vêm mineiros, nordestinos e ainda mais estrangeiros. Pastel, pizza, quibe e cheeseburger convivem nas lanchonetes. Arranha-céus com nomes pomposos espetam a Paulista (“Quinta Avenida”, “Paulicéia”, “Nações Unidas”). Treme-tremes no Glicério. Centro histórico, sem espaço para carros, é abandonado pelas elites. Galeria Metrópole e Conjunto Nacional é que são o iê-iê-iê. São Paulo não pode parar, multiplicam-se Cohabs e BNHs. Segregados Itaquera 1, 2, 3 e 4, Cidade Tiradentes e para quem não teve a sorte de residir nos conjuntos habitacionais, há as favelas em volta. Radical exclusão territorial dos moradores de extrema periferia. Dejetos industriais e domésticos são jogados diretamente nos rios. Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado visa corrigir problemas, começando por definir em decreto o que seria a Região Metropolitana de São Paulo. Lobbys com empreiteiras e negócios imobiliários são fortalecidos. Interlocutores da política municipal mantêm canais de corrupção, favores e método de obtenção de ganhos políticos. Um vereador como Brasil Vita dura 36 anos na Câmara Municipal, atravessando períodos de ditadura, redemocratização e era Celso Pitta. Convivem o desemprego e o início do processo de reconversão econômica (de indústria para comércio e serviços). População pobre é pouco educada, falta mão-de-obra especializada. Boom dos megainvestimentos terciários: shoppings, hipermercados, Berrini. Venda de carros não para de crescer.

(resumo baseado em “São Paulo”, Raquel Rolnik, Publifolha, 2002)

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“O estilo de uma cidade é visível na arquitetura,
na roupa das mulheres e na qualidade dos poemas.
Mas se para conhecer uma flor bastará cheirá-la,
uma cidade, se olhada com atenção, é apenas o indício
de um homem: e esse homem é sábio,
ladrão ou polícia. Um único homem (mas onde estará ele?)
resume as maravilhas da cidade,
as suas perversões,
o modo como os líquidos circulam na cidade.”

(“Uma Viagem à Índia – melancolia contemporânea – um itinerário”, Gonçalo M. Tavares, Leya, 2010)

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