Domingo. Que melancólicos personagens da urbe são os homens-seta.

Vêm de longe e ficam parados nas esquinas, desidratando, esfolando pescoço em cordinhas com placas que apontam a localização de condomínios em construção – prédios com 2, 3 ou 4 dormitórios, suítes, garagens, cercas, grades, câmeras e outros atrativos, Visite Decorado.

Sequer são homens, os meninos e meninas-seta. Letícia, 16, sorriu para me mostrar como seus dentes da frente são separados, lamentando. Parece que Lara Stone não faz sucesso em Parelheiros. Mas não falemos de contingências – pele, pó e osso ou gordura e oleosidade, príncipe, beldade holandesa ou mamífero vulgar, matemático, xamã siberiano ou o arcaico mendigo, em algum mundo havemos de nascer e nos mover. Em ruas e avenidas regidas por movimento constante, chama atenção o fato de homens-seta não se moverem – eles estão parados no deserto.

No epílogo de “A Promessa da Política”, Hannah Arendt descreve o “moderno crescimento da ausência-de-mundo, a destruição de tudo que há entre nós” como uma “expansão do deserto”, aludindo ao esvaziamento da esfera pública. Se as ruas de nossa cidade são corredores de passagem em que nos movemos solitariamente entre nossas esferas privadas – de casa para o trabalho ou restaurantes, casas de amigos e demais clubes onde convivemos com nossos iguais – elas estão desertas.

“Ao removermos a autoridade da vida política e pública, pode ser que isso signifique que, de agora em diante, se exija de todos uma igual responsabilidade pelo rumo do mundo. Mas isso pode também significar que as exigências do mundo e seus reclamos de ordem estejam sendo consciente ou inconscientemente repudiados; toda e qualquer responsabilidade pelo mundo está sendo rejeitada (…)” (H. A.)

Há alguém lá fora?

“Em última análise, o mundo humano é sempre o produto do amor mundi do homem, um artifício humano cuja potencial imortalidade está sempre sujeita à mortalidade daqueles que o constroem e à natalidade daqueles que vêm viver nele. É uma eterna verdade o que disse Hamlet: “O mundo está fora dos eixos; Ó que grande maldição / Eu ter nascido para trazê-lo à razão!”

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