Diferentemente do que prega a crendice popular, demasiado intoxicada pela parte mal explicada da psicanálise, ainda, a melhor metáfora para opinião não é uma parte do corpo, mas as roupas que o vestem. Vergonha de ter opinião é vergonha de andar vestido. Você, numa simples camiseta, pode dar uma opinião filosófica definitiva sobre a vida; vejam, por exemplo, as marcas “drop dead” ou “slave”. Mesmo que no dia seguinte elas fiquem no varal e você saia de branco, um arco-íris de criança desenhado na manga [“era a camiseta, não era eu” / “ah” / “…” / “mas era enfática” / “sim, é” / “e bonita!” / “obrigado”]. Substituto sonicamente infeliz de “crítica”, opinião carrega em si a marca do amador, a hesitação insossa do diletante. Acostumamo-nos a dar ao texto opinativo um teto baixo, o respeito vai até certo ponto, a paridade com a origem (o objeto criticado) também [“achei fodona” / “é fácil falar, quero ver ir lá no palco e cantar” / “eu não quero e quero ver ele vir à minha poltrona dizer que achou fodona, é super difícil, pense em tudo que me aconteceu até agora, nos materias que montam os móveis dessa sala, onde estou e de onde falo, pense em todos os nossos corpos na noite de hoje, em tudo o que associei para achar o que achei e todos os músculos que articulei para fazer a palavra fodona soar em alto e bom som” / “é… falar talvez não seja tão fácil”].

Paraíso e manguezal da opinião, a internet parece ter inédito e enorme o potencial para ser o sítio de treinamento intensivo e campo de batalha que ora se esboça nítido e inspirador, mais urgente que os romances do século XIX e a imprensa e o cinema do XX [“o romance vai morrer?” / “deixa ver… não” / “o jornal?” / “só um segundo… diz que não!”]. É assim que ela cresce, a civilização, deixando coisas para trás e levando adiante seus hologramas transformers. Basta se dedicar um pouco à leitura de sequências de comentários a um objeto de seu interesse numa URL qualquer. Ali estão os atuais russos explicando a França desde uma frieza mais oriental; ali estão os atuais americanos reagindo mal à economia mal feita; ali estão os atuais andinos bebendo chá cefeinado e clamando por progresso e retorno ao que nunca se esquece.

É muito fácil cercear um cineasta. Fácil cercear um romancista. Dificílimo cercear um comentador de internet. Todo nosso estudo, até hoje, serviu para que fosse diluído em comentários na internet. Agora podemos compartilhar em velocidade explosiva e ininterrupta o conhecimento total. Mas há um movimento corrente além da já tratada vergonha de ter opinião que se revela mais problema que solução e cuja propaganda diz: tenha vergonha de ter opinião. É um absurdo perdido no meio da síntese do mundo concreto que é a internet. A contrapartida, já em andamento, é a proliferação do que seriam os blogs de moda, voltando à metáfora da camiseta.

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