A espécie pode trabalhar pela violência desde cedo. Em si, o fato não a distingue. Mas quando ligado à complexidade das ferramentas dessa espécie e a sua intuição gregária, pode levá-la bastante além.

Nos primeiros exercícios de piano, a criança é instruída a descer ou sentar o braço no instrumento. Os dedos, desacostumados, e as mãos, arregonas, cresceriam assim, com o ato inercial da não-prática: mais desacostumados, mais arregonas. A prática, violenta porque contrária a este crescimento dito natural, quando ligada ao instrumento e a seu método, e à possibilidade de música, é desejada e compartilhada como um bem; sua violência cede força a e é violada por um prazer que a rebenta em forma de construção.

É comum distinguir nos relatos dos observadores do ensino médio dois tipos de tratos com a violência: congelamento e repetição incentivada de ritos que divertem e assustam menos; coibição. O primeiro vê a violência como um produto final e sem dinâmica; o segundo exclui de dentro algo muito incluso lá fora. Ambos extra-curriculares, falham. E estão na raiz do que pode fazer do Brasil uma potência vexaminosa.

Em Estética da Violência I e II, uma classe sem sala, os alunos perambulariam, agrupados em peças, pelo que houvesse lá. Pátio, campinho, corredor, calçada, shopping, sempre em atos de observação e coleta de cenas de luta. Cada expedição teria um parâmetro regente. Distância, por exemplo; e os alunos saberiam que a coleta teria tanto mais prestígio na volta quanto mais fosse rompida a escala do olho nu. Procurariam a luta fractalmente. Iriam para longe física e metodologicamente não só pela riqueza da expedição, mas para questionar o resto da escola.

Na volta, as peças se confrontam e o professor arbitra a gravidade de cada luta descrita. Se de toda luta decorre uma e apenas uma ameaça, que é um lado perder (quando um movimento é finalizado por um vetor contrário, quando um vetor contrário é anulado por um movimento), e a violência, além de artifício maior na luta é a manifestação concreta e explícita (como cabe ser a escola) do desejo de um isso em anular/finalizar um aquilo, de derrotar, torna-se natural e justo que vença a peça proprietária do relato mais violento.

O movimento ou vetor violência é contrário a um desenvolvimento qualquer e a favor apenas da História. Parece querer andar para trás e é por isso mesmo geralmente odiado. Excluída do que pode ser agradável e provavelmente vítima dos erros magníficos do século passado, a violência cresceu inerte num canto, por mais sensacional, com chances baixas de ser desejada como bem, de ser violada em construção. Mas a violência é uma problema e, na travessia da formação, é o maior problema. A violência é um problema carente de luz, e a escola precisa ensinar: como desejar melhor o desejo violento.

Neste vídeo salivado de 25 minutos, o filósofo refere-se ao “tabu fukuyama” para ligar violência e fim da história. Entendo que o tabu fukuyama seja um lugar ideal e sem trabalho ou um paraíso fukuyama, este lugar impossível e sem violência. Olhar pra lá não como quem delira num deserto, mas como quem rascunha, é ligar trabalho e violência num fio imaginado, ou: é saber o rumo numa caminhada sem fim e sem destino. Tirar a violência de seu canto é tratá-la como um material, trabalhá-la é esticar esse material até seu esgarçar, esgarçar para que um dia, ideal e impossível, ele suma.

A Estética nasceu para nos colocar a um passo das coisas e, aqui, trabalhar para melhorar os bens desejados e compartilhados. A Estética da Violência não gosta de tabus na teia e atribui à violência um carregado viés de prazer. Respeita um significado histórico sem perder o direito de citá-lo, ou de roubar-lhe os termos quando preciso. Apresenta a violência como o objeto dinâmico de uma conversa, um problema esgarçável ao limite. Está amparada numa tradição tão antiga quanto o primeiro bater de calcanhar no chão. Pode abrigar sob escrutínio, graças a uma soberania que talvez nos fuja, qualquer tradição inventada, a qualquer hora, e decretá-la bela ou feia.

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