“Eis que os membros separados do corpo eclesiástico, novamente se uniram, e já nada mais existe que separe pela discórdia os ministros do evangelho de Cristo.”

É o caso, entreter-se com a frase de São Cirílio à luz do assassinato de Hipátia, a bela e casta filósofa e matemática de Alexandria. Retirada de seu carro e levada a um lugar menos público, a mulher, narra-se, teve seus “membros separados” e sua carne descolada de seus ossos com conchas de ostras; e então, tudo foi queimado, seu corpo junto a seus escritos.

Atribui-se o crime aos tradicionais capangas ou mercenários, os que pouco pensam por si mas que são exemplares no retorno a um comando. Três são as hipóteses do envolvimento de Cirílio, então Arcebispo de Alexandria, no caso. Um, foi ele quem deu a ordem. Dois, fez apenas vista grossa. Três, ficou até surpreso.

Cirílio foi ambicioso, culto e politicamente obstinado. Perseguiu cristãos heterodoxos e judeus loucos. Impressionou doutores da Igreja escrevendo sobre a divindade de Jesus, até que ele mesmo se tornasse um (doutor). TInha diferenças com Orestes, então prefeito de Alexandria, e classificava-o como frouxo e pagão; e como Orestes tomasse lições de Hipátia (e esta, dada à geometria e à razão, parecia-lhe meio ateia e perigosa, quem sabe a grande e satânica influência nas resistências de Orestes), pode ser que Cirílio tenha visto neste vínculo o entrave que atrasava Alexandria na evolução da cristandade. Hollywood já tratou do tema, ao que tudo indica de forma estereotipada, parcial e simplória.

A brutalidade cênica do triste fim da professora, mais sua famosa beleza, mais sua provocante escolha em não ser mãe nem esposa (e não eram poucos os pretendentes), menos por qualquer neurose do que pela dedicação integral ao trabalho de editora, educadora e cientista (começou ajudando o pai a organizar e comentar Euclides e não parou mais), fizeram sua história viajar Idade Média e Renascimento adentro, ora como a figura do curioso que brinca com o fogo do saber e paga o preço, ora como a figura da mulher que se mete onde não foi chamada, ou que fala quando deveria calar, e paga o preço. Fato é que o infortúnio de Hipátia viajou até Juana Inés de la Cruz, poeta mexicana perseguida e censurada que não raro tinha de disparar torpedos desde Sevilla (via Irmandade das Letras) contra sua própria terra.

Aqui misturam-se minhas impressões, irremediavelmente distantes e assim fadadas à imprecisão e ao mero divertimento especulativo. Estes nomes de mulheres e experimentadores intelectuais que não fariam mal a uma borboleta mas que se acumulam na história baixo à coluna de desonrados, insanos e calados, são com maior frequência subproduto de disputas políticas ou morais? São alvos, ou obstáculos, da ordem na cidade ou do bem pensar? É carne ou verbo, o que lhes torna imigos?

Talvez eu baixe o filme, que traz Rachel Weisz no papel de Hipátia, mas duvido que me ajude mais do que atravessar em silêncio duas horas, o que não é pouco. Talvez eu leia mais Juana Inés, mas duvido que ela me faça menos encantado. Agora que a humanidade venceu a religião e a ciência e a técnica imperam na organização social, é o caso, entreter-se com a ideia de que a disputa política, o engenho da dominação, sempre correu paralela e alheia a qualquer concepção de sagrado, a qualquer desejo de união.

No tomo cinco de suas obras completas, Octavio Paz divide conosco a seca perplexidade do jornalista autônomo:

“O caminho escolhido não era insólito, mas convencional: a Igreja sempre fora o amparo dos talentos pobres e dos literatos sem recursos. No clero secular, nos conventos e nas ordens abundavam poetas, dramaturgos e até romancistas. Nenhum fora perseguido por escrever obras profanas; a liberdade de que gozavam era ampla, desde que não afirmassem nada contrário ao dogma. Sua [de Juana] resolução de tomar os hábitos, apesar dos estorvos e inconveniências da vida em comum, fora de acordo, acertada e conforme à tradição. Já que não tinha gosto pelo matrimônio ou meios para se arranjar junto a um decoroso, o convento foi um compromisso razoável entre a existência livre e solitária da intelectual e os serviços da vida doméstica. Por vinte anos seu tato e sua habilidade lhe renderam protetores em lugares vários, sobretudo no mais alto: o palácio; assim pôde viver num balanço fecundo entre a profissão de religiosa e sua verdadeira vocação de escritora. Súbito, tudo se quebra e uns prelados intransigentes a cercam, a acusam e pedem que não escreva senão de assuntos religiosos. Por quê?”

E em seu Outono da Idade Média, Huizinga chega perto da formulação de um diagnóstico conciso (que não engendra cura, apenas nos faz erguer as sobrancelhas): “Mas a história da civilização tem a ver tanto com os sonhos de beleza e com a ilusão de uma vida nobre como com o recenseamento e os impostos.”

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