Em Guerra, poema de abertura do lançamento de Ana Guadalupe no mercado, Relógio de Pulso [7 Letras, 2011], o leitor recebe o que parece um senhor mau convite (que voltará para pegá-lo outras 12 vezes antes de anestesiar geral). Na primeira estrofe:

tique nervoso
à espera de alguém
que venha

Um tique nervoso é o tipo de coisa que te faz perder uma guerra, e este fato, francamente, provoca gratuitamente o resto do poema todo. Mas já no segundo verso, por um mergulho na tradição, somos como que resgatados. (Sim, voltou-se a falar em tradição, e todos os poetas parecem aliviados. Quem poderia esperar uma união dessas proporções a partir do sentimento de fuga urgente para a tradição?) No caso específico, falamos da tradição barroca do claro-escuro. Um tique, estalo de movimento, é o contrário da espera. Se não é uma poesia viciada em tocaia!, pensamos então, com certo alívio. Um autor com pouca chance de perder a guerra, é disso que o leitor precisa pra seguir em paz.

Nas estrofes finais do poema, ela dobra com capricho um lençol branco de casal em seis partes, e se não há razão áurea, também não há sobra. O e de peso, quando cai em travesseiro, dá o sabor delicioso do que ouviremos pela frente. A habilidade aqui só pode ser classificada como natural ou completamente acidental, já que ela evita o assunto em 100% do livro (ela não fala de rimas). Por mais que tentem enganar o clima de agoridade, os termos comuns e a versificação com quê de asmática, é de música clássica que falamos:

pra sufocar
com o próprio peso
o peso do outro:

uma bigorna
um piano
um travesseiro

Crescida na internet, a poeta e redatora de redes sociais parece querer confessar, e não a baixo custo, que já sabe do pior. Teria lido numa sala de chat, não importa. Mulher séria de setenta e poucos; inscrita na tradição desconfiada da poesia biográfica; sabida no que se refere à grande e nem por isso redentora noção da encenação da violência que não se separa de nada. E nem por isso deixa de gostosamente vacilar, como no quinto poema:

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas

Perdido entre o quê? Aranhas? De qualquer modo, é fácil imaginar Passé Composé (destacado, aliás, na contracapa) lido alto e movimentado a uma turma de alunos de Língua Portuguesa em qualquer canto do mundo. O poema é, sem metáforas nem a meme de se dizer o contrário do que se pensa, uma joia impressionante.

Imagine que há três modos de amor, o enorme, o firme, o forte. Imagine que, mesmo perdido, ele retorna. Retorna, chacoalha, e parte. Eis, o credo de poeta da jovem do interior do Paraná. Depois ela tinha um blog, depois ela estava entregue. EU FECHO.

Guadalupe tem um pouco de mandona, um pouco de cobradora. Se ler um livro de poemas é fugir do que se sabe de ouvido para deitar no que se leva de herdado, ela pede: volte aqui, pro mundo das lendas! em Juarez e Juarez II. Ciente do que faz, tenta reduzir ao máximo. Mas não há minimalismo que chegue, neste mundo essencial. Então está lá.

Passamos para cair numa terrível cena de sexo, magistralmente antecipada, no poema Amor em Círculos. Tudo aponta para a clandestinidade doentia, como cabe no erotismo:

no domingo ela contaria sobre
os meninos que tinha beijado
de olhos abertos no estacionamento
um deles era violento e morava longe
passava férias no apartamento da tia
ergueu a outra no ar até saltarem
aquelas veias finas
do pescoço

Se não há apoteose pluralista (I. M. Simon) na forma, é porque a mente do poeta jovem mais recente funciona como a de um bom webdesigner. A autora confessou, num momento de privilégio deste blog, que teria feito a capa melhor (donde nossa fan cover). Usar com mouse e cursor, com todo respeito aos mais velhos, é usar mais pontualmente. Falemos então de flight to usability antes de flight to security, antes que ninguém aguente mais.

Por instaurar ou revitalizar (teria que ver) o termo “bermudinha” no léxico poético brasileiro, o livro todo já se pagava. Mas vieram, por acúmulo e artesanato, o fio e o peso de uma traquitana régia.

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