Ontem foi dia do Drummond no Brasil. Da minha parte, passei lendo boa parte da tarde, entre os afazeres do escritório, além de não podendo deixar de ouvir diversas leituras. Jurei que arrumaria uma garrafa de conhaque pra ficar com a lua e foi o que houve.

A voz do Drummond me atazana desde criança, foi um daqueles discos. Ali apareceu, vareta-porrete, como é possível? A voz eram patinhas de inseto velho, o canto atrás de nítida criança, tudo pra cair, e na história até caía entre vôos, mas por que tão forte? Ou, se não era forte, a voz, o que ela transportava? Deixei pra lá. Ou deixei.

São muitas as teses sobre o Drummond na internet. Basta acessar um site de Universidade e baixar. Oriente-se pelos títulos, os mais legais costumam dar em teses mais legais. Drummond foi enorme no que tentou. Há um vídeo feito por um amigo, não me canso de indicar esse vídeo, em que o poeta APARECE SUMINDO entre pilastras. Dizem que em plena Belo Horizonte. Gostava da palavra “bunda”, ouvi dizer, pela sonoridade. Há de fato o irresistível suingue paroxítono bilabial + u alongado relaxado num a quase invisível, salto e deslize, é bom de falar.

Mas hoje vamos falar de seu lado espanhol, pouco comentado na TV.

“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta:”

Temos aí a dicção espanhola sem a dor de cabeça cabralina, o que dá na dicção espanhola de fato, a de seu século de ouro. Este é um dos modos de deformar nossas ideias em poema, no meio de um pátio de laranjas, à noite, entrando ou saindo da mesquita sobre a igreja ou ao contrário.

Jogo rítmico que só o próprio autor entende foi a ordem do dia na poesia mais recente. Virou uma espécie de grande meme. Não que devesse ser proibido, ao contrário, só o poeta que navegou os ritmos pode atribulá-lo ad esquizofrenium. Acontece que tratamos excessivamente mal nossos exercícios de navegação. Envergonhados de publicar algo que cheire a música, vamos atrás de votos com enigmas sonoros travestidos de agora é assim. Tudo bem travestir-se de agora é assim, poema é poema, o problema é o enigma.

Quando compreendido como uma música, o poema domina, atinge o que seria um 100 de 100 nos videokês. Ser compreendido como ou funcionar como uma música significa revelar, no tempo, padrões audíveis que te façam relaxar ou dançar. Se dificultamos a identificação desses padrões e damos com um ouvido cujo cérebro não está habituado a encher espaços, corremos o risco de ganhar menos pontos depois de se sacrificar fazendo um poema. Ou pior, corremos o risco de enganar o leitor, como quando quebramos uma lição de filosofia em versos e anunciamos Olha meu poema!

“As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge”

O que dirá Drummond agora? Que tudo isso está a nos levar a algum lugar lindo? Não exatamente. Tudo isso, para Drummond,

“dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo”

o que não quer dizer que Drummond era luddista, nem cético. Ele falava de flores que rompem asfalto, perceba. O problema de Drummond sempre foi o poeta e seu poema, o que é dizer, ele e seu poema. Especialistas em realidade virtual garantem que é normal: nossa imaginação nos transforma em seu objeto de estudo central. Então só podemos nos acostumar com a surpresa constante, do jeito mais íntimo, que é olhar-nos face a face vezes incontáveis ao dia e daí tirar humores, como que produzir humores desde uma fonte invisível, graças a esse estudo obstinado. Não é nada difícil se comparado à vontade que dá de trabalhar.

“e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,”

propõe Drummond a certa altura. Então a imagem poética aqui escolhida, corriqueira nas cidades industrializadas, foi a de uma máquina. Coisa a ser operada por humanos, pensamos nas máquinas em nossa escala, mas no poema o reflexo é interrompido pelo termo mundo. Mundo é enorme, impossível. Máquina do mundo, então, é uma imagem poética corriqueira em qualquer cidade, industrializada ou do tipo vila, já que todos, em qualquer lugar, num minutinho de silêncio, pensam, como isso tudo funciona? O poema, que poderia muito bem ser apenas urbano, é cosmopolita.

Mesmo mantendo a música e a todos incluindo, Drummond não se engana:

“enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.”

ou, o importante então nesse, e no próximo, serão esse, e o próximo.

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