Era um céu envelopado em branco; três pinheiros sim valsavam, sincopados neste vento grátis; era um céu de nuvens grandes muito móveis, céu com rajadas de azul; um par de manacás esquivos, trepidava e parava, dando tchau, quando a reportagem da Touro Bengala chegou à sede do Teatro Beriba. Aqui, antigo casarão lulopetista de fomento à economia criativa (hoje abandonado após denúncias de que nunca se pôde economizar e criar ao mesmo tempo) ocupado pela trupe Erfinda, Jacto & Meirante, prepara-se a montagem de “Jacto & Meirante cruzam os braços, Erfinda, explique-se”. É nosso “call to arms”, confessa Jacto, balançando seus palitos logo acima da cabeça. A seguir, os principais trechos da entrevista.

TB: Por quê? Por quê?

JACTO: Não dá pra dizer ainda é o escambal.

MEIRANTE: É medo forjado do que possa de pior acontecer, despreparo-imaginário-confesso numa palavra, corrupção.

ERFINDA: Olhe isso aqui [ela empurra com os pés uma caixa de papelão molhada com pastas estourando de papel]. Isso foi tudo. Li tudo. Tô obcecada com o material de que é feita a história. Tentei ligar cada linha com cada linha e criar uma justificativa biográfica. Não consegui. Por isso não falo.

TB: Ontem conversei com cientistas dos Estados Unidos, eles seguem os milisegundos da atividade cerebral e parecem entusiasmados. Descobriram ligações realmente “novas”.

JACTO: Essa é uma das gracinhas, os vários níves em que tudo se dá. Há uns leitores-tradutores muito eficientes que nem dizem respeito ao ou interferem no dia-a-dia do teatro. Há um sem número de leitores-tradutores caprichosos e parciais cuja função é atazanar quando não fingem gostar do que fazem, fingir gostar do que fazem quando não atazanam. Um porre diário, vespertino e noturno, ralentando conforme se conhece mais de ideias como a música das esferas etc.

MEIRANTE: É gente que não quer mais nada por aqui mas continua, curiosamente andando e consumindo. Fazem parte do estudo, claro, mas são agentes substituíveis por uma válvula. Uma válvula, perceba, é muito simples. Tivessem mais força de vontade e menos amor ao não pensar e cuidariam da vida.

ERFINDA: Olhe isso aqui [ela traz uma pochete de treinador de cachorros]. Os cachorros. Não se vai aonde, sem ferramentas? [abre a pochete e tira, uma por uma, um rol de ferramentas lustradas, dispondo tudo metodicamente sobre a mesa]. Atrás deles [barulho de ferramenta], ao lado deles [barulho de ferramenta], trotando ao lado deles [barulho de ferramentas], pouco a frente deles [barulho de ferramentas], impossivelmente longe deles e assim dizendo sem saber mais se à frente ou atrás deles [barulho de ferramentas], curtindo um domingão junto com eles [barulho de ferramentas]. Ainda, sempre que um nasce ou sempre que se vê um novo, ou mesmo num dia qualquer, sem aviso, são eles sendo eles de novo, como se nunca tivéssemos existido. Descobri, pasmei e já não sei que posição fazer com os braços, o treino é para os treinadores passarem o tempo? Todo esse tempo foi disso que se tratou? Não mudamos nada?

JACTO: Nada é exagero. Mudaram as pochetes.

MEIRANTE: Devemos agora ouvir uma pergunta, Jacto.

JACTO: Certo.

TB: A-ham. A-co-ham. Sim, é, deixa ver aqui… “lembrei do pai de um amigo que pilotava caças e de uma criança com a roupa suja, de uma tia que mora em Orlando e faz barulho etc”. O que acham desse tipo de intervenção que passou a reinar, da referência multifacetada e semprecambiante a figuras arquetípicas no lugar da descrição do que de fato acontece? É medo também?

JACTO: Também. Mas em si, não é mau. Dá pra classificar sob “exercício narrativo”. O problema é de quem não inova muito, ou de quem inova pouco, o que gerou outro problema, ainda mais grave, das inovações que não funcionam de imediato mas que são, no decantar, brilhantes.

MEIRANTE: Esse é um problema, o tempo. Essas intervenções, sempre destrutivas como toda boa crítica, padecem do imediatismo inimigo da música, o que faz do que poderia ser uma boa crítica uma crítica dispensável. Não é um consenso desses que buscamos. Lutaremos contra essa crítica, mesmo.

ERFINDA: Dê uma olhada nisso aqui [ela some pra cozinha e volta com dois vazos vazios de flores com água amarelada pela metade]. Essa água segue os dias e as noites de dois de nossos personagens mais queridos. Referência multifacetada semprecambiante, treinamento de cachorros, imitação de gatos, música, interrupção inconsequente da música, eles fazem tudo isso. Como tratá-los? Como mudá-los? Como deixá-los ainda mais redondos? É isso que me consome.

TB: Você consegue ladear música com interrupção irresponsável da música. Como é isso?

ERFINDA: Eu tenho esse direito porque represento gente que sofreu no passado recente.

JACTO: Só pra que fique claro, eu Jacto não compactuo com o neofascismo apoiado na vingança geracional. Vingança é coisa do cotidiano.

MEIRANTE: Eu discordo dos dois. Da Erfinda porque ela revela sua fraqueza generalista quando enaltece o assassinato o mesmo tanto que a música. Isso é ruim. Posto que é muito mais fácil matar do que tocar uma boa escala, muita gente vai se sentir “ajudando” inspecionando e dando tapa na bochecha ao invés de sustentar uma tríade, que ajuda, na verdade, muito mais. O que a TV não diz é que os melhores músicos dariam assassinos excelentes. Ou seja, é um erro simples. Do Jacto porque isso que se dá não é neofascismo. Todo fascismo, velho ou novo, pressupõe uma exclusão. E aqui no novo sistema cabem todos, desde que “adequados”. Ainda, teoricamente cabem. Se se está disposto ou se caprichosamente se evita, aí já é como aquela frase sobre frequentar clubes, aí já é como os clubes cuja principal atividade é escolher quem é o próximo, numa sucessão que te rouba da fruição das coisas simples da vida. E também porque dizer que vingança é coisa do cotidiano é perder a chance de dizer que justiça se faz no átimo de um milisegundo, nunca deixando de ser.

JACTO: Diplomata!

MEIRANTE: A bola está com o entrevistador, Jacto.

ERFINDA: Posso mostrar um desenho que fiz?

JACTO: Erfinda linda linda, acabou aquele desenho?

ERFINDA: Sim!

JACTO: Mostra, pombas.

ERFINDA: Um segundo [ela some para o sótão e depois de algum barulho volta, novo penteado e cartaz]. Ó. Tanto faz se de cima para baixo, se de lado, ou se de baixo para cima.

MEIRANTE: De fato, me emociona.

JACTO: Erfinda!

ERFINDA: Ah, vocês.

TB: Hãp-ham-ham. A-ham.

JACTO: Seguraí, brodagem, olha direito.

TB: É… Eu sou repórter de teatro e não sei nada de desenho, estou trabalhando. Vocês terão um bom tempo, depois que eu for embora, pra discutir como e por que isso ficaria bom numa parede.

JACTO: [sussurando] Ela é viciada em desenho.

TB: Eu amo teatro sem ser viciado, olhe que beleza, consigo não fazer resenha enquanto peço uma pizza ou atravesso a rua, por exemplo.

MEIRANTE: Sim, o mau do viciado é que ele facilmente vira um banana.

TB: Sim.

JACTO: Ai, Erfinda.

TB: A-co-ham, ham. O que vocês acham do péssimo teatro que é feito diariamente nas ruas?

MEIRANTE: Péssimo.

JACTO: Tendo a ser tolerante. Cervantes era tolerante, Cervantes escreveu Don Quijote, a melhor peça ever, então eu serei tolerante.

ERFINDA: Teatro péssimo tem limite. Demais.

TB: O que podemos antecipar para nossos leitores da peça “Jacto & Meirante cruzam os braços, Erfinda, explique-se”?

MEIRANTE: Será brutal.

JACTO: Pouca ação minha e do Meirante, claro, e uma Erfinda em erupcão autobiográfica tão forte quanto reveladora. Afinal, todo mundo já sabe. [risos] Será postado no que eles chamam lá fora de X-Rated Brazilian Website. [risos]

ERFINDA: Sério, será uma página negra em nossa dramaturgia. Algo para não se ter orgulho, esse era o briefing.

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