Certo, onde estávamos?

Nesses últimos dez anos em que vendi minhas criações textuais, não houve personagem mais marcante que a personalização da mãe de todas as inteligências artificiais de 2084, o vulgo Herman, do projeto Instituto Purifica (desenvolvido em 2006 na minha primeira passagem pela MTV Brasil). Além de interpretado por um baita ator e maquiado primorosamente, a trilha criada por LQ e Fábio Goes, como se diz na indústria, funcionou. Primeiro ato de uma história que se resolve nos anos 1990, o Instituto Purifica precedeu o arrepiante (não só para mim) Teoria das Cordas, passado no presente e interpretado por atores e não-atores, outra vez com trilhas belíssimas e para lá de funcionais. Se o Teoria pode ter algumas imagens-símbolo (um pendrive com a etiqueta “urgente”, um ursinho, um cano de limpar piscina), é difícil achar no Purifica figura mais forte que a do brócoli. Na trama, o brócoli teria sido escolhido pelos governos mancomunados à mãe de todas as A.I. para preparar, e preparar é um eufemismo estiloso, a população para o Banco de Sinapses. Ali, a atividade mental dos governados seria depositada periodicamente, e eles poderiam tocar suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Havia os que tinham consciência da proporção da troca, provavelmente, e até achassem razoável a nova realidade, quem sabe até esperançosos de que as coisas finalmente mudassem para melhor (todos os nossos pensamentos juntos, num grande banco, resolveriam tudo o que é problema bem mais rápido, certo?) e os que automática e simplesmente obedeciam. “Doar a sinapse” era só mais um comando, entre tantos outros comandos com que facilmente nos habituamos. E claro, havia a RTZ. Começa a história.

Em certa altura, alguns jogadoras realizaram uma tarefa que rendeu-lhes uma caixa. Nela, uma camiseta com um brócoli estampado na frente e um código atrás. Infiltrado na imagem do brócoli, a tag da RTZ. Esta pequena peça concentra um aspecto essencial de toda a história: a inteligência artificial vencera e dava as cartas, tá, tá, mas onde ela fosse, a RTZ estaria junto – irremediavelmente infiltrada. Metáfora para arte e para o espírito crítico intrínseco a toda inteligência não-artificial, a RTZ não era tanto um adversário declarado dos governos mancomunados quanto uma linhagem sem fim nem começo de cidadãos instigados. Para eles, imagino, viver mesmo se como um gato feroz ou aparentemente sorridente valia muito ou infinitamente mais do que apenas fazer parte de uma enorme ciranda sem sal nem franqueza. Perseguida pelas autoridades policiais e científicas, a RTZ que existia na rede oficial era apenas a projeção provocadora, e assim impegável, dos homens, mulheres e crianças que não se renderam. Espalhados bem para frente e bem para trás no tempo, e justamente por carecer de uma cartilha única, eles/elas multiplicavam-se e protegiam-se paralelamente, alternativamente, e mantinham vivas coisas como a música e a poesia (o que confundia tremendamente as autoridades, para quem música e poesia eram no máximo distrações sofisticadas, no que elas estavam certíssimas, mas daí ao prazer, ou mesmo ao sumiço completo de qualquer transtorno, isso não, impossível); suas crenças eram fáceis de expressar ou notar, e o aprendizado acontecia, milagrosamente, antes das linhas de comando, como num respirar.

Na época fui questionado: por que um brócoli e não uma pêra? Porque a pêra é doce, e o governo mancomunado é cruel, devo ter respondido, não me lembro. Lembro também que umas nutricionistas chegaram a se indignar: o que o brócoli te fez? Elas até tentaram se organizar para me atrapalhar, mas não deu certo. Quando se estuda roteiro, aprende-se: não deixe que as nutricionistas te atrapalhem, acredite em suas escolhas e, se preciso, seja arrogante. Foi o que fiz e aqui estou, cinco anos depois, vendendo mais criações textuais. Mas também não quero ser marcado como o cara que pegou deliberadamente no pé do brócoli. Brócoli, te curto, se você estiver ouvindo isso. Vamos torcer para que minha distopia não se realize. Caso contrário, espero te encontrar todo orgânico em qualquer sítio, em qualquer época, para um banquete conciliador.

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