Fui à mesa dos então escritores Miguel e Luís Felipe e não tinha, ainda, a completa noção de que se deslocar no espaço é um ato só, junto ao no tempo. Se soubesse, talvez, não escreveria.

Aqui na primavera da imagem sou eu, pouco antes do grito. Miguel dá um gole d’água e Luís ri, batendo as duas palmas das mãos nos dois joelhos. A próxima é o começo do grito, e o som. Sinfonia mesmo. Dessas de muitos de crina de cavalo grande contrário em arcos múltiplos.

O homem abria os dois braços e molhava os lábios de baixo.

– Os dois aí, evitando a esfera otorrinolaringológica e eu sou o louco, diz, depois do grito.

Ambos ocupados com leituras de textos salvadores e produções nichadas, falta tempo para a prática da escrita em colchete vermuti (nome usado quando perguntam). Não há, em Miguel ou Luís Felipe, um tipo de chapéu-côco, bóia e calça curta costurada zanzando em veredas, nesta cor, naquela cor, numa cor de lado a outra cor, apaixonando-se por uma conhecida ou distante em andares comentando as casas. Tampouco sentimos sua falta, até que encontramos.

A teologia e a devassa dos experimentos cerebrais agitam o mercado, hoje, porque interessam e apelam a nós, essa massa fustigada sem cessar pelas desordens.

– Dissimulados na tv e fora dela, gritava.

Miguel pede por gentileza aos seguranças que não toquem no homem. Levanta. Luís Felipe levanta, braços cruzados. Miguel goleiro de handball com guarda de avenida paulistana. Luís Felipe concordando com a cor de um assovio no escuro, se você for, ou com a já documentada situação do Louco de Palestra acontecendo finalmente com ele. Suou-se e fez-se pouco, e de forma desproporcional, naqueles minutos. Em conluio, seguranças e locais libertam-se bravamente daquilo tudo que o esbaforido, baixo um som de fliperama do inferno, já chamava de conspiração postergatti, a dos homens que postergam, mas só para pegá-lo, não para dizer firmeza nem nada do tipo.

Antes, entre todos, um homem de bata e com tufos de pelo no lugar do cabelo emergiu,

– Este homem não é louco!

Homens da técnica traziam cajones. A esperança: anular ou ritmar, pelo menos, com este som chamado à época baldeia-tuba, naqueles minutos, antes do grito Miguel! Luís Felipe! Olha o que estão fazendo! Dois seguranças e um local formam biombo entre o louco e o homem de bata. As famílias vão deixando a tenda. Luís já conversa próximo a uma das organizadoras, certo que para persuadi-la. Miguel dava pinta de telepata e os assistentes no salão coletam, coletam no campo. As primeiras fileiras inteiradas aplaudiam sem esconder, esperavam mais. E os jovens estudantes que não assediavam os escritores com livros contrários já tinham, na confusão da saída, moeda nova para apostar na volta ou não do microfone, na serenidade espontânea do homem de bata ou na aula de alongamento, se a organizadora daria uma ajudinha, se na sequência haveria um mergulho, e como seria, e quem veria mais disso, menos daquilo, sempre indo, até que na tenda vazia.

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