Evito falar aqui do trabalho, mas como nele agora estou e não há muito o que fazer, vou arriscar. Pode ser que não fale mais, pode ser que fale diretaço, mas o caso será mesmo de eu falar quando puder.

Existe esta preocupação em estar presente no e gerar receita com o mundo dos celulares. Legítimo. Afinal, a mtv não tem por que ser a primeira a pular fora do mundo dos negócios, rebatendo esta opção com sua vontade vital. Ora, sigamos em frente, se o intuito não é revolucionar nada, apenas conquistar e manter um espaço no dia-a-dia digital de um suposto público oferecendo vídeos e infos e, ao lado destes, espaços vendidos de selos de aval desde marcas cujos produtos, por sua natureza, não queiram dizer nada, apenas encher barriga ou aquecer um quarto, mas que devem se esforçar para aparecer mais que os ditos concorrentes, vender mais produtos que encham a barriga e aqueçam um quarto e então melhorar o salário de seus cientistas e operários – supondo aqui que as marcas cujos produtos não queiram dizer nada também não têm por que praticar heroísmo jurídico e se oferecer como as primeiras a pular fora do mundo dos negócios, mas aí já não seria de minha alçada e para não me comprometer teria que usar metonímeas. E então? Então, aparentemente tranquilo, principalmente se o suposto público tiver opções virtualmente infinitas de achar vídeos e infos por aí, perdidos por aí ou simplesmente imaginá-las quando estiver a fim. A mtv não é tão grande assim nem os celulares tão importantes, o que atenua mais e mais a história. História que de resto não mereceria nem um post, de monótona.

Acontece que tive que gravar vídeos novos para divulgar os mesmos produtos do ano passado, fui informado que eles funcionavam. Confesso que tentei abrir uma discussão técnica, de engenharia de produto, mas não tive sucesso. Decidi fazer os vídeos da melhor maneira possível consumindo o mínimo possível, e só não pude ceder ao capricho de usar o Jardim Botânico como locação, coisa minha (coisa de japonês, diria minha professora de piano, digo, coisa de artista, não… Não sei, ela usava os dois termos quando queria comentar meu silêncio diante de comentários recém-feitos por ela, sem saber que eu fabulava nomes para o tecido de sua blusa com um exercício de Bach ao fundo, então ela dizia, Você faz direito e não fala, Guilherme, como um japonês, ou, Guilherme, você é um artista, e eu notava uns olhos místicos nela). Fato que cresci brasileiro e administrador, longe das imagens da professora e do seu imaginário que não me tirava da superfície de uma blusa ou de uma melodia geométrica, e meu piano cresceu notadamente amador.

Chegando lá, no Jardim Botânico, impediram nossa entrada por um descompasso de burocracias, o que nos obrigou a improvisar com o que tínhamos, as áreas sem grade do parque estadual, em frente ao portão fechado. Eram vídeos de fato improvisáveis, apenas rosto, celular e natureza. Quando vi tantos pássaros grandes, recomendei sua captação. Que bom poder filmar um vôo, mais de um, uma coreografia de vôos, um deleite em movimento, uma convergência de pássaros, e encaixá-la num vídeo de qualquer coisa que eu vá editar, pensei. Quem edita sabe dos benefícios de um movimento suave. O que não consegui prever, e hoje só posso dizer ainda bem, foi a seguinte configuração visual. A imagem a seguir não só entrou para o corte final do filme Rock (que divulga um game tipo rock star, mas via celular) como é o último frame antes da imagem seguinte, e quem edita sabe da importância do último frame de um quadro em relação à primeira do outro, para além de Eisenstein, importante, pois a questão acaba sendo mesmo de olho, e se for para justificar para o diretor do filme (sorte minha que, neste trabalho específico, acumulei as funções), recomendo aos iniciantes que Eisenstein não seja citado (principalmente na tv, os diretores são sujeitos atarefados e geralmente sem tempo para teoria) e que ela, a justificativa, mire, de algum jeito, algo que uma criança entenderia numa boa e sem crise. Sempre fiz assim e tirando montagens que nem eu mesmo, revendo, não aprovaria, sempre deu certo (aqui vale dizer que, talvez por outro golpe de sorte, nas montagens com que me decepcionei depois de prontas, acumulara também a função de editor e diretor, e diretor, para quem não conhece Hollywood, é aquele que responde pelas escolhas que possam deixar cada cena melhor de acordo com o que ele acha melhor, a um suposto chefe. Como tantas outras nomenclaturas, assimilamos mais essa. Fazendo vídeos ao longo do tempo e do espaço, percebi que é besteira implicar com o termo autor, realizador ou mesmo diretor, pois essa implicância não seria um novo vídeo, vídeo, vídeo, estou falando de um vídeo, feito quando muito para embelezar trinta segundos ou comunicar qualquer decisão do governo, que são os vídeos que mais ou menos importam aqui, e a discussão de nomenclatura dá no máximo um diálogo nem tão engraçado.

– Você filmou MESMO urubus?

– Não sei, são urubus?

– Sim!

– Então sim, filmei. Veja essa convergência que parece um rosto grato e otimista.

– Mas são urubus!

– É você, quem está dizendo. Vou cortar para esta outra cena, onde há um só pássaro.

– Você SABIA o que estava gravando?

– Sim…? Só fui gravar coisas bonitas porque achava que este não era o forte dos produtos, então tentei, sei lá, balancear. Veja, voltamos com flores, borboletas, plantas que sacodem no vento, pássaros, uma garota, céu, terra, enfim… muita coisa.

– Vão cair em cima! Dizer que você… sei lá, está… chamando alguém de urubu! E vão te chamar de sacaninha!

– (risos) Você é muito criativo.

– Cara, pensa BEM nesse vídeo! Não é assim.

– Não é assim como?

– Não sei… olhando agora…

(tempo)

– Olha que não ficou má, essa transição?

– Viu? Pássaros e céu azul!

– 🙂

– 🙂

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