Vocês acabam de sentir dois homens, dois homens que nunca existiram. Aliás!, um dilema. Dois homens prontos a vestir as quaisquer máscaras ou faces, máscaras ou faces que os permite ultrapassar as meras carnes e encaixes em pé. Seu medo, leitor, é o súbito acordar em meio à noite e não poder reconhecê-los. Jacto, quando bares frequentava, era dono de certezas bonachonas. Elas vinham em igual medida de um darkismo cosmopólito moderno disfarçado no aprazível molho da esperança americana, herança do pai, e da consciência hiperinflada de ruptura geracional dos 1970. Consciência, sim, que sempre há, mas que de meados dos 1990 para cá vem reclamando sua escala humana, seu tamanho menor que a Terra. A isto, ou mesmo nisto, a frase “está dando certo” enfim se aplica. Tanto que hoje se aproveita a discrição localista comum a tantas cartas, catálogos, lições, almanaques e espelhos críticos, discrição que engendra calma nas terras e nos mares a ponto do progresso não ser lido mais ou tão simplesmente como a ordem de quem bota um outro quem para trabalhar, se aproveita, hoje, para, por exemplo, restituir um assaltado-em-plena-luz-do-meio-dia design de rótulos com a determinação binária e quente de um coração sem fim ou começo. Voltamos aos ideais nome de fantasia, nome do produto, se for o caso, e o que é da lei, atrás. Tudo em fonte puxada no bongostismo aristocrático ou burguês, não importa mais, sobre a constância da solidez desadornada ou da transparência pura. Mas na gôndola como eu chamo a atenção? Certeza de Jacto. A resposta é dada. Outro exemplo: a modernização espontânea do objeto livro infantil, conquista nossa. O objeto livro infantil enfim se coloca lado a lado ao mais adulto dos Alephs sem vergonha. E do autor que foge do livro infantil para experimentar na obsolescência do romance, exija-se dele, antes de acusá-lo de parte com a tramóia, um atestado do psicotécnico. Será uma coisa ou outra, ou as duas. Trabalhando muito menos no livro infantil, o autor tem mais tempo livre para autorar inúmeras outras ações, falas e gestos, tão importantes quanto qualquer livro. É, cada vez mais, o que se vê. Outro exemplo, o último: a crescente desinfantilização do jargão psicoanalítico, jargão cujas bases não carecem, exatamente, de sustância. Aquilo ali é para lá de poético. Faltava, sim, engavetar tudo por um tempo. Como se faz, pelo menos o poeta cuidadoso o faz, com um poema. No dia seguinte, é comum ouvirmos, você lê com outros olhos, mais aguçados olhos, olhos novos, você desgosta da maioria do poema, você se desfaz do poema, deixa-o intacto, mudando apenas o sentido de cada afirmação, enfim, os poetas sempre dizem isso, que engavetar para reler é crucial. E é justamente o que se observa, já, gavetas sendo enchidas para breve fechamento e diversão. Meirante, quando bares frequentava, conheceu Jacto, e não sabia tão bem ler. Apenas desconfiava das certezas bonachonas do outro, e o mais longe que as levava era para concluir, patético e com sede: como é isso. Não que as não levasse longe, que o longe do mais longe não pode estar tão longe daí, mas por não serem elas, exatamente, as certezas, e sim suas desconfianças, ou formas maleáveis, ou germinadas-certezas. Era o que tinha Meirante, além do incômodo de errar, sempre fingido, pelo cardápio, apenas para dizer, fechando-o e devolvendo: esse da casa, vem como? Germinadas-certezas, por afinidade vacilantes, deixavam temerário o Meirante. Hoje ele pode dizer: Kafka, se eu te contasse que só melhorou. Não naquela época. Seu riso nervoso, mais alto que o riso nervoso do Jacto, predispunha pescoços girados, breves desertores de um sanduíche, à má conta de sua pessoa pela simple erupção do ar, meio sagrado e sonoro, por um riso nervoso que não é música, tampouco um ruído orgânico como um ronco, mas que num bar não acaba em briga, em média, se não passar disso, de um riso nervoso e alto. Assim que puderam se conhecer e trocar, beber e empilhar livros. Quando descobriu que as letras, na verdade, eram figuras, Meirante nadou de braçadas e chegou a implorar, ato que aponta para a maturidade: me tira desse clichê. Cresceram à noite, pela bebida, sem uma grande confusão sequer ou nada mais de tão narrável.

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