Não me lembro quando foi, que eu desisti da arquitetura. Nem como, nem por quê. Onde estão, aqueles tantos cadernos milimetrados que enchi? As casas todas. Continuei comprando, as Pentel, mais porque de um rabisco, quase nunca e ninguém se vê livre, do que porque continuei a brincar de arquitetar. Pergunto-me se hoje, arquiteto formado, estaria mesmo dedicado a fazer casas afastadas de escritores respeitados, pois todas que vi, na internet, me balançaram muito. Na cadeira de Sistemas & Métodos da faculdade creio que pude, calculando a distância harmônica (no sempre hipotético, mas sempre necessariamente possível estado de abertura concomitante) entre portas e gavetas, ter roçado inconscientemente nessa minha mania pré-adolescente. Todavia não bastou, para que eu me lançasse como agora, empreiteiro, na destruição do que me separa dessa refação de memória vital. Minha mãe, lembro, aparecia com cadernos novos, donde eu tirava um incentivo orgulhoso, cifrado ou não, e quando tal sensação, vem da mãe, vírgula, é como se o filho, numa projeção adulta dele mesmo aumente, bancando o potencialmente precoce, original, idiossincraticamente canônico e candidamente intempestivo arquiteto prodígio, as chances de que ela fique bastante nua, camomílica e ainda mais gamada no guri. Eu estabelecia desníveis, jardins de inverno, portas de correr, piscinas internas com bares e banheiros circulares conjugados a vários quartos que também se uniam pelas varandas, entre selvas civilizadas de samambaia e pimenta-de-cheiro. Foi dos 13 aos 15 anos, menos até, e não mais, e hoje tão forte é a imagem da lisura do papel-circuito cedendo às borrachas e retraços, envergando, quanto é a falta de detalhes, o branco do que foi o fim, o kaput, da mania. Onde estão, tantos cadernos? Assim que hoje, praticamente, me levo menos a sério na relação espacial. Não é que tudo pode, não mesmo, mesmo por que, vamos confessar, não daria tempo. Mas é que homem do meu tempo, crente na burocracia e alienado via tecnologia do que nos trava os ingênuos e desvalidos do fluxo da história e da cadeia do progresso, não tenho tempo para abstrações. Então é empírica, minha relação com a arquitetura, e não mais um vou-mudar-de-uma-vez-eu-mesmo-ou-qualquer-outra-coisa tipo de relação. Quando acontece como aconteceu, sábado agora, no SESC Belenzinho, por exemplo, eu reparo. Ela existe! E pode ser tão boa! Claro, os céticos dirão: era noite, a brisa fria balançava copas, o piscinão vazio refletia a lua crescente deitada, como nos livros infantis, e o silêncio reinava, catedrático. Não interessa. Ela simplesmente aconteceu, arquitetura pura envolvendo meu cada passo e microgiro de pescoço. Testemunhei um coração levemente acelerado, uma boca pêga no entreaberto pré-baba, enfim, a certeza material daquilo que, agora vejo, por dois anos, dois anos que só podem ter sido marcantes, considerei seriamente enquanto desejo, mas que num alzamérico fade-out, misteriosamente, sumiu da vida. Poucos minutos depois eu ganhava o auditório novo, aconchegante e dono de um eficiente esquema de reverberação, calculo, espaço do mais próprio para a dança das cabeças que deveriam estar ouvindo elas mesmas, as de Naná e Egberto as suas de outrora, do lance Paris-Oslo em 77 (não era pra ser com Naná, mas foi) revivido hoje em dia, imitando-as, ou reconstruindo a ficção das ficções que é o passado, dançando a cabeça dos ali até mais tarde, com suas pausas e reflexões que músicos tão bons assim conseguem.

Aqui, uma resenha de Dança das Cabeças.

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