Um e apenas um modo de se celebrar a literatura de gêneros é ver e apontar a coloração fixadora com que surge uma variabilidade lexical de mais a mais já alta. No caso brasileiro, um livro com zumbis no meio tem, de saída, potencial de aditivo premium para a cultura. Deve ser investigado.

Tanto melhor quando o autor demonstra maturidade no trato da forma, romance que já fez e frustrou o bastante para reter seguro, no afã sereno desses tempos, tempos que eu evitaria classificar usando o procrastinativo “pós-modernos”, mas que sim descem mais livres de humanismos, sua inocência cativa e original. A cena do pai com “pescoço em frangalhos” vindo é duplamente interessante: fenomenológica e poeticamente, e tal conquista é bem mais árdua num cenário realista, naturalista ou simplesmente cômico. Xerxenesky assim o faz, vê-se na disposição. Quanto à composição, cada aspecto do livro é uma busca da síntese que supere a ansiedade e olhe à frente da dureza da auto-crítica, mesmo que esta não exista mesmo e aquela seja pura e comprovadamente insuperável. É o esforço do autor contemporâneo e quem sabe o de sempre, sintetizar a infalibilidade do fracasso.

O movimento é estranho mas já alguém terá falado disso naquela série Norton (elas existem mesmo? Tem vídeo?). Um narrador, criatura do autor, cria outra história talvez para aparecer menos e acaba competindo em drama com os próprios personagens. Xerxenesky não inventa o livro em chãos suspensos, mas faz um bom. Secamente da trama de vingança centrífuga de Mavrak ao tédio do D.F. e na estupefaciente aproximação em dolly in com zoom out do D.F. às tripas, areias e olhos, ao “morto-vivo se acercando de Vienna” e à experiência genealógica da noite, aos coldres de Mavrak.

Deve ter sido a culpa dos outros que envelheceu o romance tão rápido (comparem) nesses séculos. Resta pesquisar por que a volta. Uma renovação cíclica dessas tão esmiuçadas na historiografia? E tão inconclusas? O que fica, parece, é um ganho de cor e de corpo. Aliás. Tem alguém ouvindo antes? O leitor brasileiro, sedento, famélico, farejará mais e mais distante esta sorte de obra, e eu prevejo um banquete monstruoso.

De riquíssima concepção imagética e informação segura também nas expressões mais frescas do cinema e do video-game, Areia nos dentes pode ser lido como um tear de projeções mentais sistematicamente compostas opostas e não-contrárias a outras brutalmente improvisadas, e o manejo dos pontos e saltos acusa cristalino o pendor musical do autor. Nota-se consciência dramática na economia de objetos (roupas, cavalos, bebidas, armas e pouco mais), competência imaginativa na concentração quase alegórica das cenas (Milton Hatoum?) e a coragem da criação própria e não-filiada que sempre aparece, permeável e como se do nada, para inspirar leitores e formar novos autores.

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