O que Jan Mukarousky, Buffon, Victor Hugo, Croce, Hans-Robert Jauss, Lamartine, Vigny, Musset, Novalis, Edgard Allan Poe, Nerval, Baudelaire, Roman Jakobson, Edmund Wilson, Chateaubriand, Wordsworth, Byron, Hoelderlin, Jorge Luis Borges, Coleridge, Heine, Gautier, Corbiére, Laforgue, T. S. Eliot, Pound, Wellek, Warren, Viktor Chklóvski, Victor Erlich, Púchkin, Nekrássov, Dostoiévski, Blok, Hegel, Marx, Lamartine, Mallarmé, Marshall MacLuhan, Joyce, Valéry, Engels, Conrad Schmidt, Sousândrade, Bécquer, Rosalá de Castro, Leopardi, Octavio Paz, Ruben Darío, Huidobro, Fernando Pessoa, Humboldt, Platão, Dante, Swedenborg, Cortázar, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Lezana Lima, Severo Sarduy, Cintio Vitier, Silvestre de Balboa, Gregório de Matos, Laurence Sterne, Machado de Assis, Macedonio Fernandez, César Fernandez Moreno, Adolfo de Obieta, Fitzgerald, Omar Khayyam, Herbert Quain, Luis Harss, G. Toppani, Curtios, Hocke, Julia Kristeva, Mkhail Bakhtin, Rabelais, Guillermo Cabrera Infante, Drummond, João Cabral, Nicanor Parra, Max Bense, Eugen Gomringer, Apollinaire, e. e. cummings, Eisenstein, Webern, Mondrian, Albers, Max Bill, Susanne Langer, A. A. Mendilow, Maiakóvski, Khliébaikov, Zé Celso, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Charles Olson e Décio Pignatari teriam em comum? Pensando nisso, apesar de saber a resposta de antemão, fui fazer um bate-volta em Santos.

Houve propaganda (no sentido da propagação natural, múltipla e intratável de qualquer mensagem orquestrada) das realizações de restauro e revitalização em Santos. Fica difícil sentir num bate-volta. A impressão é de uma cidade normal, com a idade que sabe ter, além de, claro, seus santistas que a fazem e usam. O turista que chega, como eu, para poucas horas de um domingo, não trará um veredito da propagada reforma urbanística, salvo impressões vagas de avanço concreto, como as ciclovias, abandono aqui e ali, menos arte de rua que o esperado e os apitos de navio, apitos que não agridem ouvidos médio e interno nem os nervos, nem o miocárdio, como faz o apito estridente da rua que não ajuda na segurança, ao contrário. De mais a mais, ótimos frutos do mar, hospitalidade concentrada e o prédio da Bolsa do Café, marco paulista e brasileiro cuja história e suas desdobras nos podem ser úteis também agora, já que o tempo é de pujança nacional e de aberturas, e devemos escolher se a prioridade será competir globalmente (sempre desconfiei desse futebol econômico entre as nações, marmanjos que sabem melhor do  que isso) ou cuidar da gente. E se um marqueteiro vier dizer que far-se-á um sem que se abra mão do outro, mesmo num discurso presidencial, teremos um grave problema de lógica pela frente. A blogosfera, então, ávida com seus técnicos e filósofos, examinará a questão de perto.

Bairro típico industrial em Santos

Bairro típico residencial em Santos

Os nomes têm em comum um espaço criado por Haroldo de Campos em março/abril de 1970 e publicado em 1972 pela UNESCO (México, Siglo Veintiuno Editores) baixo o título Superação e ruptura da idéia de uma linguagem exlusiva para cada gênero literário, mudado para Ruptura dos Gêneros na Literatura Latino-Americana em 1976 e publicado em 1977 no Brasil pela coleção Elos, dirigida por J. Guinsburg, da Editora Perspectiva. São mais ou menos 121 nomes em 40 páginas de um livro de bolso, mais fino, mais leve e pouco maior que um iphone. No espaço, curto, a tese do hibridismo dos gêneros é apresentada com eficiência e estilo. Entre os nomes, copiados acima na ordem de aparição, passa-se por informações e sugestões bibliográficas como a Morfologia do Conto de Magia, trechos de terceiros como “As obras intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas”, “Desde el Siglo de Oro las letras españolas son un desierto hasta Rubén Darío”, “Por qué cantáis la rosa, oh, Poetas! / Hacedla florecer en el poema”, “If any poem deserves the title of Latin American epic, this is it”, “O texto é sempre uma informação na linguagem sobre a linguagem e somente isso”, contextualização de eventos históricos como a invenção do telégrafo, conceitos como a manifestação oral, a manifestação escrita, a linguagem monologada contínua e o caldo criollo de Lezama ou Gregório de Matos, que, “cognominado o “Boca de Inferno” pela virulência de seu estro, leva a miscigenação de elementos própria do período até a textura mesma da sua linguagem, entremeando nela, para efeitos de contraste e de grotesco, vocábulos tupis (indígenas) e africanos, numa jocunda operação de caldeamento linguístico-satírico”, além de sopros como este da prosa poética e despojada de Campos. Los Premios, de Cortázar, seria seu “romance ainda costumbrista”, Examen de la obra de Herbert Quain seria exemplo “do amor borgiano pelo texto breve e de sua busca de um estilo neutro, hialino, de uma precisão e elegância quase impessoais”. Em 1928, Mário de Andrade “publicava a sua superfábula, criada mediante a combinação de elementos permutáveis de um corpus de lendas”. O mexicano Tablada seria “fascinante figura de trânsito entre “Modernismo” e “Vanguardia””, e Sousândrade, “insulado patriarca latinoamericano da poesia de vanguarda”.

Preocupado com a contundência de artistas que causaram no mínimo reformas e, idealmente, revoluções de linguagem, Haroldo de Campos talvez se entregue a nomes fortes e simplificações didáticas como o próprio termo do título, Ruptura, para, imagino, associar a forma do texto a seu fundo, um desejo de coerência sempre perene, como nos mostra um pêndulo, e que se hoje soa nem tão necessário, nos anos 70, ainda calor do concretismo, talvez soasse. Antonio Candido aparece duas vezes, tem trechos citados e é responsável pela aparição de Picasso (sua única), Brancusi (idem), Max Jacob (idem) e Tristan Tzara (idem). Poe, citado nove vezes, é apontado como revolucionário da linguagem e visionário, assim como Mallarmé (11 vezes). Nosso Sousândrade ganha 10 citações, mesmo número de Octavio Paz. Oswald, que “conviveu em Paris com pintores”, aparece bem mais que Mário, “leitor infatigável dos experimentistas europeus”, 18 vezes contra 12, e seu poema-comprimido amor é apresentado na íntegra, centralizado na página, humor. “Eis um verdadeiro manifesto contra o vício retórico nacional”, celebra Haroldo no entusiasmo da concisão. Oswald, na verdade, é o campeão de aparições, e em segundo estão embolados Huidobro, Mário, Mallarmé, Paz e Sousândrade. Antepenúltimo a ser citado e com dignas duas aparições (mais que Wordsworth e Proust, por exemplo) está Augusto de Campos. Augusto que, além do nome, manifesta-se num trecho de seu Balanço da Bossa e entrega um tento a Caetano (um de suas cinco vezes) e outro a Gil (de suas quatro), além do derradeiro tento a Oswald quando diz dos tropicalistas:

Por isso seus discos são uma imprevista colagem musical/literária, onde tudo pode acontecer e o ouvinte vai, de choque em choque, redescobrindo tudo e reaprendendo a ouvir com ouvidos livres, tal como Oswald de Andrade proclamava em seus manifestos: ver com olhos livres.

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