José Dirceu disse recentemente que a geração de 68 chegou ao poder. O Brasil estaria, assim, 43 anos atrasado. Não acho possível esse tipo de generalização. Em alguns setores, pegue os experimentos neurocientíficos de M. Nicolelis, parece estarmos já em 2015, quatro anos a frente deste post e 47 a frente de 68. Em outros, pegue a discussão dos labirintos borgianos no ensino médio ou a própria questão da democracia tal como explicada por Toqueville e sedimentada nas redes P2P, e o que vemos são estalos do contemporâneo, mas o grosso é de um atraso que estarrece.

Há exemplos, mesmo em Brasília (Brasília lugar distante, mais um pouco ganhava o rol do realismo fantástico latino) de gente que é puro 2011 e faz e acontece. Eu mesmo conheço dois. Assim como há exemplos, mesmo na Academia (Academia cada vez mais nas esquinas, coisa boa de se ver) de gente que se crê puro anos 70 e não consegue ou não quer ver as belas faces de termos como “primitiva”, “duradoura” e “irmandade”. Descompassos existem, sabe-se. E é resolvendo-os que se avança, pois sem o dito atrito a “roda que está longe gira, gira, não sá-ai do lugar” (letra de um funk proibidão que estou compondo para o segundo semestre). Assim que o melhor seria examinar caso a caso, já que até as árvores têm poder (presença), não sendo justo datá-las de 68 por um capricho estudantil.

Tudo isso para falar de datas, marcos ou deltas de tempo, ou da utilitária simplificação de um mistério ao que sabe irrevogável. Quanto tempo tem a casa de onde agora digito? Qual a data do muro frontal, ou as datas de suas etapas? Quando, as grades com pontas de lança bifurcadas? De quando, o altar de seixos? E os pisos de mosaico? E as sólidas laterais de pedra aparente? As cortinas azuis, antes ou depois do último polimento no corrimão dourado? A falta que sentirei de empreender este sonho (temporário) de habitação coletiva, três, quatro, cinco, muitas vezes onze e às vezes cem ou duzentas pessoas juntas, diminuirá do modo que uma folha seca abatida pelo vento descende sem controle até o repouso do chão? As ficções que escreverei ambientadas nesta casa serão lidas pelos moradores do futuro arranha-céu numa sentada ou através de meses? Os futuros moradores farão música espontânea com tantos instrumentistas por mais de 18 minutos sem parar? Dúvidas patéticas, as que se apóiam em marcos ou deltas de tempo mais que na razão, e por isso mesmo de um ruminar saboroso, contemplativo, sem fim como as voltas do mundo.

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