Deu-se no pós-guerra um repuxo sem igual na indústria e no comércio. A ordem do dia, então, era sustentar de qualquer modo o crescimento econômico alto e atender, o mais rápido possível, tanta gente sem geladeira. Institucionalizavam-se poderosos agentes de embalagem e persuasão os grupos internacionais de publicidade, e profissionais das artes cênicas abriam suas agendas para ofertar produtos. Foi importante para que técnicas como o kanban, de controle de estoque, se popularizassem via estudos de caso e filiais, ganhando eficiência ao chão de fábrica e inspirando trabalhadores a resolver por si e criar soluções muitas vezes simples que retornassem ganhos de pura eficiência. Coisas que estavam ali mas seriam queimadas e esgotadas, dando em iguais medidas benefícios (energia) e destruição, carvão e petróleo, este último de forma obsessiva e multifacetada, deram o tom à cultura econômica décadas a fio. Um volume também inédito de lixo foi gerado e depositado a princípio sem critério em terra, mar e órbitas próximas ao planeta. As cidades enfrentaram, e talvez antes dos ficcionistas distópicos, o paradoxo da lei de mercado: a lei do excesso e do descarte.

Foi-se o tempo em que a necessidade de financiamento produtivo justificava o mercado de capitais, que emancipado no solo imbatível da virtualidade quer a indústria como uma de suas bonecas. Seu peso e suas narrativas acusam áreas de coisa humana em total falta de aderência à ética terrena (ética terrena fio de ouro da lógica), mas seu peso sozinho fixa o termo emprestado do mercado produtivo, bottom line, em todas as outras linhas, anteriores e posteriores. Receita e tradução da ansiedade maquinal que, se bem pensada, já está em qualquer corpo consciente.

A união transparente, e por isso difícil de se demonstrar numa matriz acostumada à união supermaterial, de superfícies, indica que dará o tom à cultura planetária pós-econômica. Tom que não deixa de considerar a economia, mas ensina sua leitura desapaixonada. Ela mesma se prediz, antes de qualquer estudo, no tempo em que se formula, como se transparecesse dimensões de música nas beiras e fulcros da argumentação. É anúncio e constatação, previsão e consequência. Quando lê a economia, por exemplo, do século XX, consegue não sofrer – desamarrada, é como se viajasse ora em close ora em plano aberto, girasse e reconfigurasse não a coisa, mas os ângulos e coisas, e não voltasse sem a catástrofe, nem a esquecesse, mas percebesse padrões tão variados e repetidos que o objeto sozinho assumisse a normalidade, por exemplo, de um milênio. A crítica passa a se encorpar, parte de sínteses, e agradece. Só vai melhorar.

A reorganização econômica, sua reorganicização, acontece nos detalhes da união transparente. O controle, esvaziado de seu erotismo solar, é aceito e dividido. As nações democráticas são inúmeras, transmigra-se. O estado é cada homem e cada mulher em seus atos e falas. O folclore da nação é celebrado; produzido, fruído e cuidado como são, em rodas locais e redes pós-espaciais, tantas outras tradições aderentes.

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