Soube por um cartum que o leitor entrou na livraria só para encontrar uma estante com duas seções, J’ACCUSE e MEA CULPA. Era tudo. Agora imagine o autor, esse despreparado. Claro e metódico nos perímetros do maremoto. Autor de dentro de quem se arrancássemos o tal cordel de aspirações luminosas e o sintetizássemos num trecho, leríamos, na confusa bricolagem das areias coloridas, algo perto de Dentro, círculos / de feraz perscrutação, de raios distintos, o lastro da esponjosa variação radial para uma conciliação de série; civilizada e florestal a ponto de uma vez desfeita em pó luminoso, e por puro acaso eólico, a vaidade retomasse sua forma pelo quê, menos de um segundo (o bom da memória fotográfica, diferente do que afirmam os pessimistas, seria isso), mas a diva corresse e tudo se acabasse, imagine esse autor, obreiro atônito, a calcular a essência de sua função ali e naquela hora. Seu desânimo.

Tal personagem, hipotético, pode não ter nada como um cordel de aspirações luminosas a oferecer, mas traz consigo cadinhos. É de sua qualidade clarividente não deixar de desistir tão fácil. Ainda que metessem toda a verdade num pendrive. Do alto de sua casa, ele respira. Não escrevo nada além, você deve pensar, pois cairia no tabu do espiralado. Dois tracinhos, signo cômico da melancolia, ambos abaulados e um maior que o outro, talvez se apresentassem perto da cabeça do leitor, leitor que em pé, frente às escolhas, não se moveria por excesso de bondade. Fabuloso indeciso, o futuro morto de fome que nos iguala, nosso duplo da decepção.

O narrador ficcional quer ser, porque pode, duas vezes viril. Ri muito quando sente-se no bosque armado de espelhos, estante da livraria, lugar tão novo e por que não seu último antes da aparagem. Assim mesmo, prova que é orgânico e não desfaz sua cara nada rija de dissimulado, tão inspiradora, virada para a história mas levando, obviamente, os vários lados para atravessar. Certo da necessidade da inconstância insossa frente à maioria dos temas ditos filosóficos (ao que parece, acertadamente), ele divaga e quer meter-se no próprio tempo, divaga e acerta as contas com o baratíssimo pedágio do suspense. Numa palavra, quer ser lembrado por taxiar a vida inventada dos outros, quando não a sua. Um bastardo por natureza ou o próprio corpo de texto se fazendo de cigana cansada para manter viva a tradição sensual, pedagógica, de sua ocupação-fantasma.

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