Olavo é viúvo, eletricista autônomo e mora numa sobreloja na Consolação. Cláudio, narrador, ainda é garoto quando conhece Olavo na pensão de Yolanda, comadre de sua avó, no bairro de Sta. Cecília, São Paulo. Hoje Cláudio é aposentado e escritor e tenta rascunhar o primeiro capítulo de suas memórias. Na estrutura do romance, tentativas sucessivas do mesmo capítulo, capítulo em que o narrador tenta ser honesto com esse encontro aparentemente fundamental em sua formação. Cada capítulo, assim, reescreve o anterior, e todos são o primeiro capítulo das memórias de Cláudio, Cláudio que nos fala desde o futuro, o hoje narrativo, e intercala sua tentativa com as agruras do dia-a-dia de um adulto, esposa, céus, uma esposa, a irmã mais nova da ex-namorada que ele encontra na natação depois de oito anos, mesma raia, as graças do primeiro filho, a longa descrição de um fim de tarde alaranjado, cinza, belíssimo nas nuvens, visto da lateral de uma escadaria suja. O que aconteceu: Yolanda contratou Olavo para refazer toda a parte elétrica da pensão, pensão que por um motivo obscuro foi parar no Lonely Planet como última opção médio-barganha, e assim recebe esparsos estrangeiros, mas principalmente representantes de venda nacionais com negócio no centro (na ocasião do romance não há hóspedes), e deixar tudo no novo padrão, de que Olavo é entusiasta. Afinal, aconteceu de Olavo se apaixonar? Ele percebeu alguma coisa nos… olhos. Longa descrição de olhares, olhares com chinfra. Familiar? Um Olavo apaixonado fere irremediavelmente a ética do trabalho? Por que ninguém responde isso, acaba de uma vez com a ladainha de trabalho, paixão? Aquela campainha de bem-ti-vi, o neon, por Deus, gigantesco e rosa, que a conta de energia ficaria igual, aquele capricho no acabamento dos espelhinhos, rotina, rotina. Ensandecido pelo máximo de honestidade, máximo, na recriação dos quatro dias, Cláudio, do capítulo onze em diante, escreve apoiado literalmente nas imagens mesmas de sua memória. Faz um empréstimo no nome da esposa e contrata (falamos de 2032) esse caro serviço, ainda monopólio da União. As descrições, então, vão secando. Ficam precisas. O fim de tarde lindo em duas linhas e o autor finalmente se achando concentrado na gramatura das palavras. Estamos no pico do capítulo 37, Cláudio pega um gosto danado por poesia, coisa que no jornalismo (assessoria de imprensa de laboratórios de diagnóstico) nunca tinha dado tempo. Lê A process in the weather of the heart, musica o poema no violão, até que opta por uma longa e exasperada conversa com sua editora, Sofia (‘Como assim fazer tudo em endecassílabos, Cláudio!?), muda, para prejuízo do leitor (sem avisar) o nome de Olavo para Homero Mário e quando quase cogita dar ao eletricista os hobbies solitários do cultivo de violetas bifurcadas e do violino amador, licença poética tão honesta para Cláudio quanto a seriedade maneirista da reforma elétrica de Olavo, e assim válida, o cheque da esposa para o buffet infantil Caçadas de Pedrinho Até a Morte volta. Temos uma esposa desesperada e um Cláudio que confessa o empréstimo. O pescoço da esposa roliço e com veias, e o Cláudio lembrando de quando ela era judoca, no colégio. Segue uma conversa engraçada, em viva voz, entre Cláudio, Sofia e esposa. Sofia não quer dar ‘mais adiantamento’. O autor diz que estava só brincando dos endecassílabos, ela diz ‘mesmo assim, estamos falando do meu pescoço!’ Há um silêncio e, dentro dele, um acidente de trânsito tão distante que, por mais feio, mescla-se no zen da cidade. Sofia recomenda o buffet Mais Sereia, lá parcelam, diz, oito, doze vezes. Cláudio se lembra da natação, e a questão da saúde sempre teria precedência nos assuntos com a esposa, então ele sai do quarto. A esposa se agarra pelos cabelos, dá golpes de judô no ar, grita abafadamente Nããão, Nããão. O romance acaba atrás dos óculos de natação do Cláudio fazendo braço peito atrás da irmã da ex-namorada, acompanhando a bóia entre suas pernas, lisas e tão novas.

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