Seria o último Free Jazz (Aphex Twin, Moacir Santos etc). Trabalhava na F.biz, agência contratada para fazer o pequeno sítio promocional da Coca Light, patrocinadora do festival. Eu atuava como uma espécie de coordenador de criação. Nada de maluquice. Uma série de perguntas sobre bandas daquela edição e de edições passadas. Depois de muitas perguntas, alguns vencedores levariam ingresso grátis. Precisávamos de redator e designer frila, que a casa estava tomada. As dependências do divertido Fulano.com.br davam lugar ao negócio sério do pós-bolha, a startup que se legitimava, mas a seriedade era apenas ensaiada (hoje a F.biz é uma dos 100 melhores empresas pra se trabalhar, notem). Agência pequena tem que oferecer prazos insanos pra chamar a atenção, de modo que sempre começávamos atrasados. Eu fazia o que se enquadrava na época como power point art, encantava gerentes de marketing desse Brasil com apresentações exíguas e bem diagramadas. Mas bem. Quem resolveu o texto foi o mala da lista Daniel Setti. Depois do almoço viria um rapaz de Limeira recém-mudado pra São Paulo que, diziam, falava pouco e dominava o Flash e o Photoshop. Eis que chega Davis Sousa cheio de piercing, enterrado num boné. Expliquei a arquitetura pra ele, o funcionamento do sítio e fiquei um tempo em silêncio olhando pros rabiscos no sulfite, esperando que ele perguntasse ou sugerisse algo, falasse do tempo ou do trânsito. Nada. Ele também olhava os rabiscos. Ninguém disse nada por quase um minuto. Levantei, fui tomar um café. Na volta, Davis mostrava oito braços, fazia mágica e revolucionava o webdesign a cada três ou quatro cliques. O trabalho ficou simples e de uma beleza inédita naquela empresa. Fui à mesa de um dos diretores e sugeri a contratação imediata do prodígio limeirense. Deu-se. Atuamos um bom tempo como dupla, fizemos sítios de grandes marcas e depois, os dois viajando em busca do sossego metafísico, nos encontramos em Barcelona, hostal New York, bairro gótico. Seguimos rumos diversos e voltamos a nos ver na periferia de Madri. Davis produzia telas magnânimas em ritmo industrial e comia lentilhas à noite. Passei ali umas duas semanas. Vimos um histórico Jeff Mills no deserto manchego, entre outras coisas. De volta ao Brasil, voltamos a trabalhar juntos, menos com web e mais com vídeo e projeção. Adaptamos livremente As You Like It, do Shakespeare, exibida num telão. Orlando era um urso, Rosalinda tinha cabelo roxo e um saco de risada. Até que entrei na MTV e fiquei uns dois meses conhecendo as coisas, planejando o 2084. Dali pra cá, outra história. Hoje, por uma série de questões práticas, dividimos essa república. Davis toca sax alto na banda Pávlov, eu toco piano. Outro dia cheguei, abri a porta, ele estava modificando a parede. Morar em república tem dessas coisas, pensei, um dia você chega e encontra alguém modificando a parede.

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