Votei Serra na esperança de ter um FHC manipulando tudo lá de Higienópolis, legalizando a maconha já na primeira semana de janeiro. Não deu. Toca mais quatro anos de uísque e cerveja. Sobreviverei. Especialmente com tanta cerveja nova na praça, essa produção artesanal em baixa escala sem estabilizantes com rótulos fofos e o real sobrevalorizado que barateia os red e black labels. Saúde a todos.

Gostei do discurso de posse da Dilma, especialmente quando ela devolveu o recadinho aos assessores ministeriáveis. Mostrou firmeza. E quando disse que o desenvolvimento brasileiro não acontecerá sem a discussão ampla e atualizada de seus impactos socioambientais. Queremos um Ibama forte e operante, por exemplo. A discussão será tamanha que vislumbraremos termos novos para ligar a desenvolvimento, jogando fora, eventualmente, outros. Menos portos exportadores de materiais crus e mais divisões da Universidade do Cérebro. É superexcitante participar do tabuleiro global tascando potência, mas esse jogo de machinho olímpico vai sair de moda. Olhar para dentro do país não com o objetivo de mostrar uma coisa pra eles (eles quem?), mas porque também sou mulher e mãe, pensará Dilma, tenho habilidades que os barbados nem sonham, cuidarei para que isso deixado em meu colo cresça forte e belo e suingado, sem pressa. Defendo que o Brasil se mostre mais e mais blasé frente a todo e qualquer assunto internacional que não esteja diretamente (e quando digo diretamente não quero dizer indiretamente) ligado à diminuição do sofrimento no planeta. Caso contrário, vamos pensar, vamos pensar, pedimos vista, temos muito trabalho além do Carnaval. Os números, os números! Sim, continuarão existindo. Menos como troféus, e mais como companheirinhos inevitáveis. Ranking de país? Como se cada país fosse um cavalo? É pra chegar aonde? E o primeiro colocado leva o que pra quem? Indicador não enche a brisa de ninguém. O país deve aos poucos transparecer um desapego com os números. E a The Economist que se adapte.

Mulher Lendo, por Louai Kayyali

É difícil espiritualizar uma nação. Mas só poderia começar com uma mulher em Brasília (Brasília, essa palavra feminina). Que os ministros do Supremo deixem de frescura. Se Brasília ficar sem clima, que voltem mesmo para o Rio. Que a Casa Civil ganhe câmeras, antenas e chips e disponibilize seus computadores para todos. Não é cocô nem xixi nem sexozinho? Então não pode fechar a porta (sendo apenas facultativo nessas três atividades). A humanidade aprendeu, não há projeto de poder, poder não se fabrica nem se luta contra, é como falar durante a música. Há projeto de casas e de bairros e de novas divisões da Universidade do Cérebro. Dilma saberá mostrar a discrição que muitas vezes faltou ao Lula. Lula era o pai que ao vir buscar os filhos na festa chegava na pista, perguntava das gatas e dava uma dançadinha. Dilma vai encostar no quarteirão de cima, conforme o combinado, e dará um toque no celular, aguardando a prole pacientemente ouvindo Chico ou Tribalistas, batucandinho os dedos no volante.

Se os olhos estão voltados ao Brasil, Dilma deve ajudar a dar o exemplo da surpresa original. Esse país é repleto não só de minas e energia, mas de manos e aves. Dilma tem fama de boa administradora, qual Tamanduaré, domina o Excel. Excelente. Mas já passou. A fase agora é de fazer amigos e influenciar pessoas. Construir consensos sem a pressão do chefe. Senhora do tempo, ela fará o próprio horário e, se quiser, tirará um dia da semana para estudar algo que não conhece, ou meia hora por dia. Ela não precisa parar de trabalhar um segundo, pois cuidando de si estará cuidando do Brasil.

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