Sempre que o poema sair ruim, ensinou-me um velho mestre (aliás, a nação que desrespeita a sabedoria dos mais velhos é menos que meia nação, não tem nada a ensinar ao mundo e merece ser, como dizer, recolonizada), o poeta deve riscá-lo o suficiente para dar o poema como ‘jogado fora’; o suficiente para desautorizá-lo como obra, mas sem anular sua legibilidade. Há um movimento em curso, desde a Mesopotâmia, no sentido de arquivar e cuidar dos poemas que saiam ou não ruins. Mesmo estes, os poemas ruins, disse o velho mestre, trazem algo de riqueza e podem ser gatilhos de grandes obras boas ou mesmo de revoluções morais. Para além do óbvio ‘como não se fazer um bom poema’, vindo de onde vem, da falta de inspiração que cede espaço ao excesso de subjetividade, o poema ruim ensina tanto quanto o raio-X de um superatleta ou o escaneamento do cérebro de um cientista prolífico, sem que eles estejam conscientes, atleta e cientista, do exame que se passa. Num mundo mais e mais auto-consciente, isso é uma dádiva, é muita espontaneidade numa forma para lá de inofensiva, puro ouro, objeto único, seixo desinteressado polido por sabe-se lá quanto tempo de águas passadas, disse o mestre acariciando nuves. Os contemporâneos do poema ruim, feliz ou infelizmente, estão desqualificados para determiná-lo como ‘porcarias inúteis’, por mais que o ódio interior assim os estimule. Há que se resgatar, enfim, ensinava o mestre, o sentido Histórico que faltou às colônias ibéricas, não por despreparo do seu povo, mas porque aqui a história nunca marchou, deu-se em saltos, rupturas e muita festa (não é de se jogar fora, essa questão das festas. Lembrem-me, aliás, de falar mais pra frente da herança festiva e cortês da região de Borgonha que acabou transplantada ao novo mundo). Depois de riscá-lo em sentidos diagonais e vários, o poeta deve se concentrar em fazer desenhos em volta. Filhos de uma habilidade apenas secundária do poeta, os desenhos fatalmente saem piores que o poema ruim, o que eleva de imediato a percepção de qualidade dos versos, mesmo que só um pouquinho. Questionado se isso não seria um ‘artifício’, o velho mestre disse Não, os desenhos amadores em volta do poema ruim invocam piedade e carisma, tolerância contemplativa e, num mundo ideal, o sono.

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