Quando não faz ronda na floresta, quando não se esmera, escalavrado e desairoso, em altruísmo às gerações futuras, trabalho contínuo que pede fôlego e astúcia, Saci respira sossegado, especulando e contando casos, ao pé do fogo de nossos lares.

Tomado por paspalhão, é mais machucho, por trapo, é fruticoso, e o que faz Saci quando sai por aí, de rolê, pode ser melhor descrito como jornalismo de combate, na melhor tradição mestiço-brasileira, atividade que ora se ocupa da sustentabilidade não só das matas fechadas, mas do cerrado e das cidades grandes.

Há uma classe de estudos que se pretende explicadora de mitos, o que é perfeitamente lícito mas infecundo se partirmos do princípio que o mito existe para ser nutrido, antes de explicado. Elementos folclóricos intercambiáveis, como ensina Pierre Grimal, acabam plásticos nas mãos do poeta, que modela seu trabalho ao sabor do próprio gênio. Grimal chama a atenção para o Prometeu de Hesíodo, corruptor, frente ao Prometeu de Ésquilo, redentor universal.

Benfeitor dos homens e das mulheres e amante da natureza, Saci é nítido no próprio Prometeu, quando este vem com travessuras para cima de ninguém menos que Zeus. O peralta esconde os ossos dum boi sob vistosa banha branca, reservando aos Mortais a carne mesma. Irado quando tira a banha e só encontra ossada, Zeus acha melhor privar os homens e as mulheres do fogo, o que dá em nova traquinagem de Prometeu: ele vai à roda do sol e rouba sementes do fogo. Para quê. É acorrentado em aço e tem seu persistente fígado entregue quase de bandeja à águia Víbora.

Hermes é outro. Traz um não sei quê de Saci quando inventa a Lira. Além da carcaça da tartaruga, Hermes usa intestinos de animais sacrificados, que ele roubara do próprio irmão, no lugar das cordas. E quanto de Saci-engenheiro não há por trás da traquitana amarrada ao rabo dos bichos, artifício que acaba com as pegadas e garante o triunfo da empresa, afinal, eram doze vacas, cem bezerros e um touro. Muita pegada. Quer dizer que visto via Hermes, Saci seria então o tal mensageiro dos deuses… da floresta? De novo. O descalabro no cerrado e o ar quase irrespirável das grandes cidades demanda novos esforços de formulação do Saci. Se há Saci no Dionísio que transformou piratas em golfinhos, há Saci no Ulisses que embebeda Polifemo, fura seu olho e vai copular, visando gerações futuras.

Nota-se alguma aflição entre especialistas quando o desafio é determinar a pré-história do mito do Saci. Certas cosmogonias ameríndias, nascedouro do Saci, fornecem mais despistes e armadilhas do que um percurso genético seguro. Mas a força do mito é tanta que uma leitura em outras bandas, quase a esmo, por exemplo a número 13 das Primeiras Estórias do Rosa, sem querer pode ajudar na construção de um ponto de origem. Aqui, Reivalino Belarmino é espoleta quando perde a mãe e acaba mesclado nas questões do fazendeiro Giovânio. ‘Cabrão!’, diz Reivalino, ‘Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e babados. Merecia um bom corrigimento.’ Contratado pelo Giovânio para vigiar sua propriedade, Reivalino não conseguia esconder certo asco pelo patrão. Com o tempo e a prosa, foi simpatizando. Então chega o Seo Priscílio e encomenda uma devassa na casa do Giovânio, rico e estrangeiro esquisito, e lá vão ele, um soldado e o próprio Reivalino, este último meio assim. Acham relíquias afetivas, lugares vazios e, depois, um cadáver sem rosto, irmão de Giovânio. Reivalino quase se perde entre fidelidade ao empregador e a força dos homens do Seo Priscílio. Num rompante que talvez, e apenas talvez, lhe custasse a reputação de ser normal, o menino se liberta: ‘Saí, então, fui no sei Priscílio, falei: que eu não queria saber de nada, daqueles, os de fora, de coscuvilho, nem jogar com o pau de dois bicos! Se tornassem a vir, eu corria com eles, desponterava, escaramuçava – alto aí – isto aqui é o Brasil’ A confusão do moleque indica certo ferimento (de orgulho?) que desperta um ímpeto solitário e apaixonado de correção e justiça e daí viriam força e coragem para as façanhas que, na aparência, desafiam a moral e a autoridade vigentes. A estória finda sem que nasça um Saci em Reivalino, mas podemos imaginá-lo ali, nas terras que ganhou do Giovânio, artimanhoso depois de enxugar toda aquela cerveja que não era dele, mas do cavalo.

Na parte que sucede O desertor e O reino da estupidez, Cartas chilenas, Antonio Cândido apresenta o caso da contenda de Critilo com o então governador de Minas. O ato do poeta é próprio de um Saci, no anonimato da pena e na agudeza e na licenciosidade da sátira. Critilo pode ser lido, a partir de Toqueville, como elemento de tensão mais ou menos perpétua na nação que se pretende federalista. O francês diz em Democracia na América que o sistema criado no novo mundo põe duas soberanias em confronto, estados e União. Este confronto pediria constantes providências e negociações para a manutenção de um ambiente pacífico e, hoje em dia, sustentável. No caso das Cartas chilenas, Saci estaria em Critilo numa espécie de entidade misteriosa ou sortilégio do Estado que azucrina o confederado fanfarrão. Se o governador era mesmo um irresponsável, ou se o autor por trás de Critilo agia por ressentimento pessoal importa menos, no caso de um estudo estético, que o resultado da façanha: a criação de um poema que pode ser lido também como documento de um tempo ou panfleto de resistência e, mais importante, pode motivar debates vários que já ganham e relacionam novos autores, críticos e frutos. A atividade do Saci parte quase sempre do instinto de preservação (pessoal, sagrada, como for), e é essencialmente criadora.

A primeira vez que eu vi, diz um relato que achei na rua, externa, noite, luzes públicas, já foi imaginando. Uns passos antes, descendo a Augusta, alguém iniciara este processo que por pouco não se iguala ao pum, estimulado, provavelmente, pela visão que teve (um cartaz, um pixo, uma pessoa, um holograma?) e talvez pelo desejo de servir concidadãos à calçada, e agora, três ou quatro passos depois, esse alguém que eu não vejo solta o ar e diz: ‘Olha! Saci de patins!’ Imediatamente, o que deu pra fazer foi continuar andando. O fluxo no crunch-hour luscofuscozo da Augusta não permite que o sujeito pare e faça ali mesmo o pensador suplicante, é muita bota e piercing em todas as direções, mas eu vi, imaginando a Augusta um tanto mais embicada e curva, e ele descia, descia maestro do amortecimento, o anexo da cabeça já bem apegado ao organismo, e já sem fazer o mesmo sentido do exame da origem do pano a discussão se aquilo tudo encorajava ou não o uso do cachimbo entre as crianças. Quanto a curva era mais aberta, o Saci de patins ria de lado, tão mecânica e levemente, que a hipótese do sorriso ou movimento que repuxa muita pele do pescoço e exibe um terço da dentição do mito não ser, de fato, um sorriso, mas mero ajuste do cachimbo aos molares, merecia consideração. Então ele baixava o quadril flexionando o joelho, feito atletas em concentração aumentada, e pouco antes de chegar ao bar combinado, quando eu já notava os rostos conhecidos e o brilho nos olhos da hostess, o Saci de patins guardava os braços atrás, atingia grande velocidade e poucos metros depois, levitava, silencioso na algazarra, e dava um trago no cachimbo em majestosa distensão. Um sticker no poste em frente ao bar recomendava: eyes for beauty and a golden heart.

Num clássico do desenho animado Pica-Pau, Pica-Pau herói-truqueiro asacizado tanto quanto Quixote e Ananse, um fazedor de relógios cuco vai à floresta pegar madeira, matéria-prima de seu ofício. Numa das árvores, aconchegado em sua mini-doce-casa, está Pica-Pau. O que segue é um trabalho do tipo hercúleo por parte da ave, confusão de toda sorte, trocas de ataque, defesa e estrelas, molas que estouram, minutos, horas cheias em badalos, Pica-Pau se finge, foge, volta e dissimula, engana, pratica enfim atos tão condenáveis naquele contexto quanto a adoção do pseudônimo Critilo ou as tranças da crina do cavalo de não sei qual coronel cruel. O próprio Hércules, num ato típico de Saci, desce ao inferno. Liberta Prometeu. Ludibria Atlas. Extermina centauros. Exila-se, fugindo da lei.

Quando Sófocles foi botar o Édipo em tragédia, Grimal nos lembra que o maldito e flagelado conseguiu aparecer como protetor e benéfico, e assim imortal, mesmo que brevemente. Quem decide a sorte do mito não seriam tanto as forças da legislação intelectual quanto a vontade do poeta. Racionalizar o mito, privá-lo de um cachimbo por didatismo binário, é empobrecê-lo, esvaziá-lo de vida e tirar ‘racionalmente’ sua razão de ser.

Saci deve vir com força neste século XXI, do lameirão ao trunfo, justo porque essa questão da sustentabilidade ganhou o cerrado e a cidade grande. O relato que achei e transcrevi do Saci de patins, ainda que amador, pode ser uma das formas inevitáveis de surpresa que estes novos cenários pedirão, decisões para além do jogo moral do dia, como a discussão se uma faixa nas vias exclusiva para Sacis de patins incitaria ou não o preconceito, sendo mais crucial, neste caso, a simples fluidez do trânsito.

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