Entre os menos superáveis dos estetas do século passado, Nabokov tinha aquela preocupação que o Cortázar e o Haroldo de Campos tanto dividiram e que pode ser expressa nesta frase de Best-Mangard (passada por K. Langer),

“As beiradas devem mover-se para frente e crescer enquanto se movem”,

preocupação, sim, e de atemporal solidariedade; campanha que colore o léxico e deixa mais justo e fluido o desenho.

Hoje cedo* iniciei o mesmo romance mais de dez vezes. Ou mais de dez romances com frases medíocres. Daí que fui buscar frases medíocres num Nabokov, nós e nossas tolices apazigua-frustração. Foi difícil mas achei uma que além de excepcionalmente medíocre, é mãe de outras duas ou três, calculadamente distribuídas ao longo do livro. Atenção:

Lost in sadness, Cincinattus said nothing.

Não temer, amar a frase medíocre, vai me ajudar no romance. Ainda assim, parece-me insuficiente. Em todo caso, manter a fé.

* escrito originalmente um tempo atrás. É mesmo constrangedor voltar ao material esquecido assim por puro senso de preservação. Pior que essa pequena merreca ao fracasso de comentário inútil está o romance em questão. Tentei pegar o primeiro capítulo e botar aqui, mas a repulsa foi tanta que não pude. Nessa época eu escrevia em pé, no computador apoiado na TV, bastante esquisito, e muitas vezes de pijama. A ideia central do romance eu mantive, mas do material em texto texto mesmo não se aproveita nada. Para não dizer que fui mesquinho, vai um trecho, acabei de achar não tão péssimo quanto o que aparece em volta, mas que assim mesmo é desgostoso:  ‘Ela ganha o quarto e aperta aquela polcã cênica, a lã vazando entre os dedos, ela pula na ponta da cama – já vão cinco ou seis anos de compradas, essas meias amarelas, mas fruto de uma política severa de uso indoor, nem ao hall do elevador Alvina vai naquelas meias, elas seguem como novas. Cinco ou seis anos de compradas numa cidadezinha encrustada na montanha, quando as viagens em família eram comuns e sistemáticas, duas por ano, janeiro e julho, sempre no Brasil, e sempre a uma cidadezinha eleita num jogo do pai: a) no meio de uma janta, ele pronunciava dois cognomes; b) as três mulheres votavam secretamente em um dos cognomes, usando caneta e tirinhas de papel; c) o pai recolhia os votos e dissimulava leve decepção ou leve espanto enquanto lia os votos e adivinhava as autoras; d) as três mulheres, talvez sem perceber, reproduziam em escala reduzida e com leve atraso cada uma das caretas do pai; e) o pai então anunciava o cognome vencedor e revelava a cidadezinha correspondente.’ Voltar a escrever em outras posições, além da posição em pé, que pode ajudar aqui e ali, foi bom porque me fez voltar a ler em outras posições, esse direito tão moderno e universal, o de por exemplo ler apoiado num cotovelo. Quando tento editar o parágrafo colado ali acho ruim já o Ela ganha o quarto. Eu queria a câmera no amarelo das meias entre os dedos dela, desde o começo da cena, e ganhar o quarto é, não vê quem não quer, um plano aberto, não um close up. O que faz ali? Essa discussão poderia me tomar quatro horas de um dia de trabalho, e não estou podendo tanto assim. De frase em frase (que não basta ser medíocre pra deixar de ser ruim, a frase), uma sim outra não eu via como sobra de cena, ficou mais fácil começar outro romance e cogitar uma novela, para não dizer uns contos ou focar nessa questão da crítica mesmo, que acaba de ser sugerida.

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