Li recentemente* este livro de Cyro dos Anjos e fui transportado à época do colégio. Desconfio que a fonte, seu tamanho e distribuição na folha (O Amanuense Belmiro, Grandes Sucessos, Abril Cultural, 1983) remeteram-me à formatação de outra coleção de banca de onde tirei os obrigatórios Eças e Machados da época. Desconfio. Sei que a sensação de viagem no tempo ativou circuitos que andavam apagados, e pude ouvir ecos da minha própria voz, um tantico mais aguda, especulando quanto do TOTAL daquelas palavras seriam palavras já ditas, mentalizadas ou escritas pelo menos uma vez pelo autor versus quanto ele teria alcançado-usado pela primeira vez na vida. A atividade era obviamente improdutiva, não tinha meios de confirmar meus palpites, e acabou cedendo espaço aos engajamentos mais sérios da vida adulta, desentortar o mundo e ser recompensado. Mas com Cyro dos Anjos, e talvez só pela marca da letra na folha do livro, o dito circuito iluminou-se outra vez. Aproveitei a onda e entreti-me, relaxado, relendo capítulos com dois contadores percentuais de soma 100 girando num canto, mas cansei. A empreitada segue improdutiva e pior, monótona, pois falamos de casas depois da vírgula depois dos noventa e nove em um contador, e só do restante no outro. Pueril. Já quanto CADA palavra foi dita, mentalizada ou escrita pelo autor até o momento da primeira publicação, e aqui a variação teria tudo para ser mais vívida, até melhor representada num minúsculo gráfico de barras em outro canto da tela, torres esguias enfileirando-se em marolas, vales ligeiros, mini-rampas, arranha-céus e uns buracos, idas ao banheiro, ao dicionário, reminiscências, caprichos e substrato onírico, pode funcionar melhor. Ou aproveito e vou daí às frases? Daí às frases e não tenho mais por que parar, daí às frases que enunciam, milagres ora indiretos que são, quase sempre, as frases frases. Observar a ressonância de cada frase do livro-diário que cita Montaigne ingenuamente, que passa pelo carnaval ingênuo de rua e que parece tão justificável, na literatura universal, sempre em tempo real, com variações de transparência para indicar aproximações semânticas, quanto menos transparência, menos aproximações, de raio para encampamento de significado, quanto maior o raio, maior o encampamento, e de altura para frequência, quanto mais baixo o círculo no eixo x, mais frequente a frase, ou aparentemente mais pesada. Um passo e teríamos os parágrafos-mancha, irresistíveis com suas arestas e coloração termo-dinâmica, peças de muitos encaixes, os parágrafos, terei sempre alguns no bolso. Outro passo e os capítulos exibidos em três dimensões, todos giráveis livremente em todos os sentidos pelo leitor. E finalmente os livros-seres, livros-organismos-unos inseparáveis de orelhas dadas ou de capas sobrepostas feito as cartas de um mágico (um de muitos), e por mais atento aos gráficos, todos tabulados, você é vencido pelo mágico (um de muitos), pois o baralho é seu (dele) comparsa no truque, ou melhor, melhor ainda feito as cartas do sóbrio crupiê calado, civilizado em suas olheiras de procurador – por mais solene, é dali que sairá o jogo, é você (sou eu) nas mãos dele, e as mãos dele são a própria e serena locomotiva do acaso, trilhos, estações e carga. O fato é que Belmiro, ora bolas, frágil, sincero e firme no teatro íntimo, deixou a saudade-fantasma secando, varal imóvel num dia sem vento, marca de um amigo que lhe parou de falar.

* escrito originalmente no pré-operatório (talvez pós)  da Rua Bruxelas, eu nunca dormia e tomava remédios fortes.

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